Eu sou o espetáculo

O teatro Paramount (Avenida Brigadeiro Luiz Antonio) foi sem dúvida palco de grandes espetáculos. Todo tipo de espetáculo por ali passou. Desde obras líricas com cantores desse ritmo, até as comédias do Teatro de Revista, autênticos musicais de Walter Pinto que tinha a fila do gargarejo. Velhos boquiabertos perante as pernas lindas de Virginia Lane, Rose Rondeli, Eva Todor e Carmem Verônica. Grandes comédias foram apresentadas nesse grande teatro na expressão literal da palavra. Em 1964 o radialista Walter Silva (Pica Pau) do programa da rádio bandeirantes, picape do Pica Pau, resolveu fazer um show de música brasileira, aproveitando os últimos espaços deixados pela bossa nova. Uma grande orquestra dirigida por Oscar Castro Neves, que dava magníficos arranjos as músicas, acompanhava diversos cantores e cantoras que explodiam os auditórios de satisfação. Jair Rodrigues estava na crista da onda e ainda estava curtindo o grande sucesso de Deixa Isso Pra Lá. Mas a grande surpresa foi uma menina baixinha meio vesga, que ninguém conhecia. Sabia-se que era uma gauchinha, que estava a pouco tempo no Rio de Janeiro. Seu nome Elis Regina. E, nesse show Walter Silva, que a trouxe para São Paulo, colocou a moça justamente com o farrista da música. Senhor Jair Rodrigues. Os dois juntos produziram algumas músicas que, gravadas ao vivo naquele show, se transformaram num dos maiores sucessos de venda de disco (O show da Bossa). Mas quem ficou por mais tempo em cartaz naquele teatro, foi José Vasconcelos, com o show intitulado EU SOU O ESPETACULO. Durante duas horas José Vasconcelos fazia o povo rir. Com o teatro sempre cheio. José Vasconcelos tinha uma característica diferente. Ele nunca entrava pela frente, ou seja, abrindo as cortinas. Ele vinha por de trás dos espectadores como se fosse um assistente que estava chegando quase atrasado ao espetáculo. A gente só sabia que era ele entrando porque os que estavam na últimas poltronas riam a beça. Eu assisti várias vezes esse espetáculo, e sempre tinha alguma coisa diferente posta no texto. Posteriormente, ele fez um outro espetáculo. As Sete Vidas do Doutor Mania, em ele imitava os políticos. Em plena ditadura militar Castelo Branco foi incorporado na peça como um homem que tinha cabeça e pescoço não. Adhemar de Barros, Jânio Quadros e outros políticos que produziam pérolas, com seus brilharecos na imprensa davam subsídios ao grande humorista. Zé Vasconcelos resolveu contar uma parte da história do Brasil a sua moda. Foi lá pelo século 19 quando os franceses estavam invadindo os mares da Bahia. Os portugueses que governavam o Brasil, prevendo que o grito do Ipiranga estava por chegar, nem davam bola para a entrada dos franceses. Foi então que alguém resolveu pegar o "touro" a unha. E, esse alguém foi Dorival Caymmi. Apressado como sempre. Sua forte característica, Caymmi pegou o barquinho o violão, e pos mar a dentro cantando. O mar, tá assim de francês, e cadê português? E cadê português? E cadê português? Se o francês quiser brigar, nos vamos brigar lá na areia. Se o francês quiser brigar, nos vamos brigar lá na areia.
Os espetáculos daquele tempo nos deixaram muita saudade. Tempos que se respirava cultura. Contrastando com os dias de hoje em que cenas de sexo e a nossa cultura.