Eu cresci no bairro do Belenzinho, em São Paulo.<br><br>Dia desses voltei ao tempo ao assistir o remake da novela Tititi. Existe um núcleo no bairro do Belenzinho. Apareceu o prédio onde morei e a trilha sonora era Aventura, do Dusek (a trilha sonora da minha adolescência).<br><br>Mergulhei em meu passado e senti uma saudade enorme que não sei dizer de quê.<br><br>Por alguns minutos, me lembrei da menina cheia de sonhos. Da menina que, em 1986, aprendia a dirigir sem carteira de motorista e se achava o máximo; que era apaixonada pelo moço rico da Rua Redenção que fugia dela como o diabo da cruz.<br><br>Senti novamente o gosto do filé à parmegiana que comia aos domingos no Restaurante Formiga, da capela do Instituto Auxiliadora onde estudava. Lembrei-me da Rua Silva Jardim, em minha opinião, a mais completa tradução de São Paulo. Com seus belenenses italianos, chineses, portugueses, árabes, cariocas e nordestinos.<br><br>Lembrei que nunca tive pediatra. Meus "médicos" foram os grandes farmacêuticos Severino da Drogaria Vera Cruz e Ângelo Branco da Farmácia do Branco. Por uma coincidência do destino, namorei anos depois com o Mário, filho do Branco da farmácia. Meu amigo querido até hoje.<br><br>Lembrei das expectativas. Do sonho de ser uma executiva bem sucedida. Já tinha deixado de lado a grande dúvida da minha infância: ser chacrete ou juíza de direito?<br><br>Só então percebi que a saudade não era de algo material. Tive saudades dos meus sonhos. Da época que me foi permitido sonhar.<br><br>Sonhar com o futuro e perceber que ele já chegou, e que nem tudo correu como eu queria. Conquistei muito. Mas abri mão de muita coisa também.<br><br>Sonhos de menina foram substituídos pelo sonho de pagar as contas no final do mês. Sonhos de ter um futuro tranquilo. Saúde. Meus pais com saúde, minha família em paz.<br><br>Sou feliz diante da mulher que me tornei. A mulher madura, batalhadora e determinada felizmente ainda se encontra constantemente com aquela menina do Belenzinho. E graças a esse encontro, continua com o mesmo brilho nos olhos, a mesma mania de agregar as pessoas, falar muito, gesticular, comer macarrão com muito molho acompanhado por pãozinho francês. E, principalmente, com a coragem de transformar tribulações em bênçãos, sem temer os obstáculos. Sem medo da aventura de andar pelo presente, relembrando o passado e olhando para o futuro.<br><br>Hoje moro em Brasília. E posso dizer: eu saí do Belenzinho, mas o Belenzinho não saiu de mim.<br><br>E-mail: [email protected]