I – Quando eu era moleque, há meio século e mais, evidente que a frota paulistana, hoje como sabemos na ordem de milhões, os veículos não ultrapassavam alguns milhares.
II – Muitos lembram. Naqueles anos 50, a indústria automotiva nacional buscava consolidação. Os veículos que aqui eram montados (quase tudo no chão paulista, não?), ainda não atingiam cem por cento de nacionalização. Automóveis, caminhões e demais máquinas, devidamente esquartejados de fábrica, vinham nos caixotes, não é? Que desembarcavam em Santos e subiam a Serra, de trem. Para ganhar forma e vida nas mãos de trabalhadores brasileiros, das oficinas de importadores e das montadoras. Isso, como é sabido, desde os anos 20 ou 30.
III – Exceções eram, nos anos 40 e 50, ônibus e trólebus. Que desembarcavam, com todo zelo e carinho, dos guindastes do Porto de Santos – inteirinhos. E que vinham para o planalto como passageiros. Dos vagões-pranchas. Anúncios e reportagens de jornais e revistas ilustram-no bem.
IV – Caminhões "médios" também de fretes, não? Os de mudanças. Aguardando pacientemente serviço nas praças, nos "pontos". A plaquinha, em maiúsculas, no vidro ou na carroceria: "ALUGUEL". Quem podia, chamava eram os caminhões "fechados", de "A Lusitana" ou "A Paulicéia", claro. Para os mais bem menos favorecidos, até mesmo uma carroça era a solução. Desigualdades, desde sempre.
V – Pelos anos 50, enorme era a variedade de marcas e modelos de caminhões paulistanos, que deixo de declinar. Todos transportando o progresso que caminhava para o IV Centenário. São Paulo manufatureira, aquela. Alguns, raros, de que tenha visto dois ou três. Os alemães de caras arredondadas. Dos Bombeiros, por exemplo. Uma escada metálica sobre pneus. Como se fosse gigantesca fita métrica que se ia "desdobrando", querendo atingir, quem sabe, o Pico do Jaraguá, para salvar alguém de lá. Escadona que trazia o caminhão nos pés: Magirus-Deutz, não? De enormes faroizões. Causavam estupefação. E muito justo.
VI – Moleque, eu nada entendia de veículos, meio século depois até parece que entendo… Nem por isso deixava ou deixei de gostar. Caminhões, por exemplo. Os dos tipos mais comuns, naquelas ruas de paralelepípedos (de cor cinza ou rosa). Caminhões a gasolina, de tamanho e carga que depois os classificariam como "médios". E que caracterizavam uma concorrência até tradicional de longa duração, que até um leigo ou desinteressado não deixava de notar. O que não era Ford era o quê? Chevrolet. Como Arno e Walita, Brahma ou Antarctica.
VII – Eram caminhões "pau para toda obra". Carrocerias de madeira, habilidade até artesanal de carpinteiros, marceneiros e ferreiros. Lembro de fábricas delas na Vila Guilherme e no Tatuapé. Na traseira, pintado a mão, o infalível aviso: "Mantenha Distância" – só faltava uma exclamação, para melhor prevenir, certo?
VIII – Caminhões que comumente eram de boleia verde e paralamas pretos.nUsados pelos feirantes, que também gostavam dos International Harvester, de calotinha cromada na roda vermelha. Ou os Fargo e De Soto absolutamente de caras (mecânica?) iguais, não? Lembro também dos alemãezinhos Opel. E de furgões, dos feirantes de doces, salgados e cereais, Ford ou Chevrolet!
IX – Caminhões da Paulicéia de outrora; outros, nem tão raros assim. De que muitos lembrarão. Barulho do motor familiar ao de certos ônibus que aqui rodavam. Explicavam a mim: era a mesma "mecânica", o mesmo motor, esquisito, eu achava. Afinal, um era um, outro era outro… A plaquinha no narigão do bruto falava: Volvo Viking, o caminhão. "Vikings" era o filme. Que eu, pouco mais que moleque, vi no Cine Cruzeiro, lindão (o cinema).
Vikings, de naus cortando os mares, o que lhes poderia ter facilitado a vida, mas sem o mesmo motor diesel do caminhão, homônimo e compatriota. Nem com todos os truques de Hollywood. Por Odin! (é o que eu lembro) X.
Eu teria uns dez anos. Sabia que suecos eram os aviões – dentre os que eu via, com meu pai, em domingos – de pertinho, no então lindo Congonhas. Os exclusivos da VASP, bimotores Scandia. E os DC-7C da SAS – sigla do nome da empresa que eu não pronunciava certo: Scandinavian. Brancos, quadrimotores americanos, as bandeirinhas do países escandinavos na deriva ("cauda") acho que até da Islândia. Que era longe dos outros três países, ao menos de olhar no mapa.
XI – Que mais eu lembro de sueco, naquela minha vidinha? Bicicletas Göerick, nas quais nunca montei. É que só aprendi bem cavalão. Numa Monark (não era de origem sueca?), marca na qual também levei um baita tombaço. De entortar guidão. E as Facit, primeiro emprego. Máquinas "made in Sweden", a plaquetinha. "De somar", falavam. Máquinas que sabiam muito mais aritmética que eu, claro. Rec-rec-rec, as manivelinhas circulares, não? A soma? "Bateu"!
XII – Pois no final dos anos 50, ou no começo dos 60, é que da mesma Suécia viriam uns “caminhõezões” de cor laranja. Faróis fora do paralamas. Caminhões "pesados". Pioneiros, montados no Brasil, como os ítalo-brasileiros Fenemês, mais pioneiros ainda, não? Eram os Scania-Vabis, naturalizados paulistanos, da Parada VEMAG: Rua Guamiranga, que jornais antigos tratam por "da Grota Funda". Uma Vila Carioca cheia de fábricas pequenas e grandes. Como a Carrosserias Continental, que fazia carrocerias de ônibus para aqueles chassis Scania.
XIII – Eu vi em publicações. Lá por 1948, a Carbrasa Carrosserias Brasileiras, do Rio de Janeiro, começava a montar ônibus urbanos sobre chassis suecos – aqueles Volvo Viking. Chassis de caminhão usado para ônibus – à época, coisa comum, não? Pois, quase dez anos depois, eu iria ver aqueles mesmos ônibus – daqueles os primeiros – rodando na Pauliceia. Eram os amarelões, da Vila Paulina. Ou os todinho azuis da Vila Esperança. A porta da frente, de saída – lembro bem – era acionada por um baita "vareta" de ferro, manualmente, pelo motorista. A porta de trás? Para fechar, posto que andava aberta, era um trinquinho, mexido pelo cobrador…
XIV – Já nos anos 60, eu fazendo entregas, tinha muito daqueles Carbrasa. Os da Parada Inglesa, que saíam da Praça do Correio; os da Viação Ipiranga, os da Santo Estevam (com m); os listados da Guarulhos. Os “cor de prata” da Viação Bandeirante (Vila Sônia, Ferreira e Caxingui); os da Viação Nefer, verdes, para Vila Mazzei. A Pássaro Marron tinha uma grande frota deles – adaptados para a estrada. Eram de cara inconfundível. E a fumaça também. Como tinham o motor na frente, no "cofre", ao lado do motorista, o grande logotipo cromado: Volvo.
XV – Numa publicação é que vim a ler que Volvo quer dizer "eu rodo", só não lembro se em sueco. Ora, nome o mais objetivo. Claro, veículos são para rodar. Então, aquele nome, mais que um nome, é uma afirmação. Marcaram época os Volvo Carbrasa, vikings sobre pneus. Olhos atentos, aqueles farois quase embutidos na cara do ônibus.
XVI – Moleque, eu guardei o nome. Assim que vi um e perguntei. “Nalguma” rua de Vila Mariana. Talvez azul. Quase da cor dos olhos do povo loiro do país de onde ele vinha, aquele caminhão. Perguntei ao mecânico ou ao borracheiro, talvez. “Como ‘que chama’ aquele caminhão, hein, seu Zé?” “Ah! Conheço ele! É um ‘Vôrvo’”! Com tais lembranças é que eu rodo. Por uma São Paulo de outrora.
Nostalgia. Eu rodo "navegando" nas recordações, como um viking – só que de mentirinha, igual aos da tela do Cine Cruzeiro.
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