Estudante pobre

No começo da década de 60 terminei o curso ginasial e pela primeira vez me achei pronto a aceitar o desafio de aproveitar as oportunidades de uma cidade grande e finalmente viver outras paradas, diferentes da vida no interior.<br><br>Não sei se por sorte ou contingência, fui morar no bairro da Liberdade, em um apartamento de uma família japonesa que morava no Largo da Pólvora e me cedera um quartinho onde a única exigência era que eu colaborasse com mensalidade referente ao aluguel daquele quartinho, o qual fiquei alguns anos.<br><br>A minha preocupação era trabalhar, mas nessa altura eu já havia conseguido um emprego e queria mesmo voltar a estudar. E foi ai que começou a minha romaria. O colégio mais próximo era o Instituto Roosevelt, que ficava na Rua São Joaquim, uma consagrada instituição de ensino que aceitava alunos de acordo com as notas dos boletins. Era uma instituição estadual e, infelizmente, não fui qualificado à vaga, porque minha nota era 6,7 na conclusão do ginásio e o colégio selecionava alunos com média acima de 8,0.<br><br>Assim começou a minha peregrinação pelos colégios estaduais mais próximos. Lembro-me que fui ao Brás, na Avenida Celso Garcia, e no Parque Dom Pedro, sem sucesso. E como eu conhecia mais o bairro da Vila Mariana, fui até ao Colégio Brasílio Machado, na Rua Afonso Celso. Lá também vaga não consegui por causa das notas, até que consegui me matricular no Colégio Conde José Vicente de Azevedo, no Bosque da Saúde.<br><br>Enfim, pelo menos havia garantido a minha matrícula. Optei pelo ensino clássico (não era muito bom em exatas, que era o ensino Científico, na época) e assim, comecei a minha jornada de conciliação trabalho/escola para me sustentar e à noite o colégio. Saía do trabalho e ia direto para o colégio. Naquela época, o estudante tinha que bancar, inclusive, a sua condução (metade do preço, desde que tivesse regularizada a sua carteirinha).<br><br>Não sei se na prefeitura existiam as facilidades de hoje em dia, mas era extremamente burocrático conseguir isso, tive que providenciar uma série de documentos e apresentar na Galeria Prestes Maia. Eu não tinha tempo para isso, porque, sozinho, precisava trabalhar para defender meu salário. Portanto, não tive sequer o vale condução e para amortizar isso, viajava de bonde (que era mais barato) até o seu ponto final, no Bosque da Saúde.<br><br>Perdi muitas aulas por conta dos problemas elétricos que ocorriam nos bondes e na Rua Vergueiro, desde a altura da famosa fábrica de chocolates Sönksen até o largo Ana Rosa, os bondes enfileiravam as suas composições e não havia maneira de cortar caminho.<br><br>No colégio odiava a hora do intervalo porque não queria estar próximo à cantina por causa do "cheiro delicioso do misto quente" que emanava lá. Para evitar essas vontades (porque não tinha dinheiro) eu ficava na sala de aula estudando filosofia "Régis Jolivet", o livro era recomendado pelo colégio. Hoje posso dizer que valeu o sacrifício!<br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>