Amigos, por força da minha atividade profissional, os amanhãs, às vezes, se transformam em daqui a alguns dias, mas hoje voltei e tentarei terminar minha narrativa. Vamos a ela
Nos olhamos significativamente, não precisamos nem falar, imediatamente nos dirigimos ao porteiro, todo imponente no seu terno escuro (ficamos sabendo depois que era o Foca) e perguntamos como poderíamos fazer para entrar no baile. Ele do alto de sua magnânima posição nos olhou, e disse: – Infelizmente, vocês não poderão entrar, pois então sem gravata.
Em seguida, percebendo nossa frustração, abaixou um pouco mais a voz e, quase num sussurro disse: -Bem, comprem os ingressos com bilheteiro e peçam para que ele alugue, também, as gravatas para vocês.
A decepção desapareceu e um sorriso brotou no canto de nossos lábios. Compramos os ingressos, alugamos as melhores gravatas entre as que nos foram apresentadas e, pronto, estávamos aptos para ingressar naquele palácio de danas totalmente desconhecido para nós.
Entregamos os ingressos para o Foca, e com os ouvidos no som da música que era executada pela orquestra (soubemos depois que se tratava de SALGADO & SUA ORQUESTRA) iniciamos a subida da suntuosa escadaria de entrada.
Subimos e assim que chegamos ao topo da escada, nos deparamos com um salão amplo e quase totalmente lotado por pares que rodopiavam ao som das musica.
É necessário que eu faça aqui um intervalo na narração e conte, para quem nunca esteve dentro desse santuário de danças, como eram suas dependências estruturais, ou seja, o salão para que terminasse de galgar as escadarias, mostrava à sua frente e às suas costas, fileiras de mesas de madeira que circundavam a pista de danças, à sua frente ficava, também, um palco onde a orquestra e estava armada. Do seu lado direito, uma única fileira de mesas e, depois, junto à parede, uma longa fila de cadeiras de madeira (+/- umas cinqüenta) ocupadas pelas "damas" desacompanhadas e que, pelo aspecto, quase nunca conseguiam companhia. E, pior, ficavam sentadas em duas camadas (uma sentada no colo da outra).
Feita essa explicação, voltemos à nossa narrativa.
Logo que entramos, fomos atendidos por um garçom que nos ofereceu uma mesa de pista. Esse garçom, conhecido por "Baiano", nos serviu durante todos os anos em que fomos habitues desse salão.
Aceitamos a oferta, sentamo-nos às cadeiras e, imediatamente, o Toninho, sempre "sortudo" com o sexo oposto, se enroscou com uma dama, a Neide, que foi também seu par constante por muitos anos.
Nessa hora iniciava-se, para mim, um grande transtorno, ou seja, eu não conseguia sair dançando com ninguém. E já começava a ficar desesperado. Mais desesperado fiquei depois que a Neide me avisou que se eu não conseguisse sair dançando poderia esquecer o endereço, pois estaria marcado na lista negra e nunca mais dançaria com alguém do salão. Então não tive dúvidas, criei coragem e decidi convidar para dançar uma daquelas "damas desacompanhadas". Qual não foi minha surpresa quando recebi "tabua" (NÃO) de todas as ilustríssimas damas, (fiz a peregrinação por duas vezes, ida e volta, ou seja, umas 200 tabuas).
Desesperado voltei para a mesa e numa última e esperançosa tentativa disse: -Já que os bagulhos não quiseram dançar comigo, vou dançar com uma das melhores bailarinas do salão. E apontei para uma linda e esfuziante negra que eu vira dançando maravilhosamente bem.
A Neide me desaconselhou de tentar dizendo que ela era muito exigente e só dançava com quem conhecia.
Não quis ouvir mais nada, assim que a seleção de músicas terminou, botei os olhos na crioula e comecei a cercá-la.
Ela, muito desinibida, brincando com todos, foi se aproximando do guarda civil que estava de plantão na beira das escadarias de entrada e com ele ficou conversando.
Eu, por minha vez, fui me acercando, sem perder de vista a movimentação dos músicos, eu sabia que a próxima seleção seria de sambas, assim que a orquestra deu o primeiro acorde, me dirigi ao guarda civil e falei enquanto ia segurando o pulso dela: – Seu Guarda, me dá licença?
Ele, sem nada desconfiar disse: – Pois não… e eu, sem perder tempo, olhei para a crioula e disse, você viu, o guarda deixou e, sem mais delonga sai dançando com ela e fazendo questão de mostrar, imediatamente que eu sabia trançar os pés e fazer figurações dançantes.
Ela, mesmo surpresa, me acompanhou nos passos e dançamos uma excelente seleção de sambas.
Juro, ela foi minha madrinha no Som de Cristal e por toda a minha trajetória naquele salão, nunca soube o seu nome, sempre a tratei de madrinha.
Por sua causa fui um dos bailarinos dos mais exigentes e me dava ao luxo de só dançar com damas escolhidas à dedo e que viessem me pedir uma contradança.
Ah que saudades dessa noite de estréia…..