A Caravana do Peru que Fala

Sempre que chega ano eleitoral, os políticos vão a busca do apoio de clubes de futebol varzeano. O G. R. Flamengo da Vila Olímpia, não podia ficar de fora. Era o clube com maior torcida da zona sul, chegando a levar três caminhões de torcida. Naquele tempo o transporte de torcedores era feito por caminhão. O Itaim-Vila Olímpia sempre teve candidatos. Leôncio Ferraz, Matews Gualda, Vicente de Vitro e outros. Mas o clube era sempre assediado por políticos de outras regiões. Paulo Amparo que era morador da Rua Tabapuã foi um candidato a nos procurar. Foi em 1963, na campanha para a vereança de São Paulo. Era ele pertencente ao Staff de Ademar de Barros. Trabalhava no palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista. Com um fusquinha azul, pertencente ao palácio, ele fazia sua campanha. Por incrível que parecera, um candidato descente. De uma educação a toda prova. Percebia-se que não havia demagogia em suas palavras ou atos. Pelo contrário falava coisas que poderia até o comprometer, em relação à moda como se fazia política já naquela época. Por exemplo: Ele tinha trinta nomeações, ofertadas pelo governador Adhemar de Barros. Dessas nomeações eu fazia parte segundo ele. Perguntou se eu sabia escrever a maquina (datilografia). Disse que não. Ai ele falou:
– Então vá aprender. "Não precisa aprender muito. Porque lá você não vai fazer nada". Fui a todos os eventos políticos daquele período, inclusive ao palácio dos Campos Elíseos, onde conheci o governador Adhemar de Barros pessoalmente.
Como candidato ele foi fiel a todos os compromissos feitos, mesmo perdendo a eleição. O que não aconteceu com um candidato no ano anterior, a deputado estadual. Foi o candidato na eleição de 1962. Não sei de quem partiu a idéia ou a indicação. Só sei que eu secretário geral do C.R.Flamengo da Vila Olímpia e mais alguns diretores, estávamos num comitê da Rua Maria Paula, centro da cidade e próximo ao Bexiga.
Era um lojista pertencente à venda no ramo de sapatos. Seu nome Carlos Kerlakian. Nas tratativas ficou acertado que o candidato mandaria passar a máquina para aparar o campo de jogo, que ficava nas ruas que formavam um quadrilátero. Ruas: Ponta Delgada, Bugio, Julio Diniz e Dr. Cardoso de Mello. Campo, que tinha desníveis, e também, fornecer o material necessário, tais como camisas, calções, meias e bolas. Também estava previsto a reforma dos vestiários. Quando tudo parecia que estava já no papel, foi nos oferecido, a quantia de 400 mil cruzeiros oriundos do fundo de auxílio parlamentar de dois milhões que os deputados tinham na época, como verba pessoal, para eventos dessa natureza. E outra exigência foi feita. Como ele era anunciante dos programas da Rádio Nacional, ele também patrocinava um show de Sílvio Santos, que era locutor comercial da rádio nacional, e fazia bicos com uma caravana de artistas da própria emissora, intitulado, A CARAVANA DO PERÚ QUE FALA. O apelido de Peru vinha de umas brincadeiras que Manoel de Nóbrega fazia em seus programas, da radio nacional, das 12 a 14 horas. E que ele Silvio ficava muito vermelho igual a um Peru. O candidato nos pediu para que contratasse a seu pedido um show no bairro de Vila Olímpia e cuja divulgação fosse grande para o afluxo de muitas pessoas. Isto foi feito. Então ficou decidido com Sílvio que num domingo, faríamos o show às seis horas da tarde. O local escolhido foi na avenida Doutor Cardoso de Mello esquina com a rua Alvorada. Um amplo terreno baldio. Para felicidade nossa o domingo começou daquele jeito que brigadeiro gosta de pilotar avião. Céu azul, nenhuma nuvem, logo pela manhã 20 graus Celsius. Bem cedinho já estávamos nos preparando para o evento. Eis que de repente começa a chegar inúmeras peruas Kombis, do Baú da Felicidade, trazendo um monte de coisas. Nas calçadas da Cardoso de Mello já estavam sendo colocadas maquinas de costura Elgin, Televisores Colorado RQ, liquidificadores, ventiladores, brinquedos e um monte de badulaques de marcas não muito famosas. Quando saíram aquela perua, vieram mais duas. Desta feita trazendo varia moças uniformizadas para vender os carnês. Só concorriam a aqueles, quem tivesse comprado os carnes daquele dia, com duas primeiras parcelas pagas no próprio dia. Uma para o cofre do Baú e a outra para o bolso das vendedoras. E a "plebe" até que fez fila para comprar. Na hora do espetáculo, tinha gente até em cima de telhados, e árvores. E a troupe artística chegando. Raquel Martins, Ronald Golias, Canarinho, Borges de Barros, um cidadão e sua macaca Chita. Valter Ribeiro dos Santos, Simplicio (Simplicio, Simplório, da Simplicidade Simples) seu jargão. Um artista oriundo da cidade de Itu. Uma bonita cantora loira e ele, Silvio Santos, a figura mais esperada, que ao subir no palco teve mulher que subiu na própria alma, com gritinhos histéricos. Como a Vila Olímpia era um reduto de maus educados, Silvio Santos parou o show e ameaçou retirar os artistas, caso a algazarras não tivesse fim. Ai a calmaria retornou. Ele e a cantora loira que não me lembro o nome fizeram aquele brilhareco. Ele:
– Aonde você foi parar, Maria Chiquinha ?
– Eu fui, no mato fazer xixi, Silvio meu bem, e por ai a fora.
Foi um espetáculo que ficou na retina dos Vilaolimpianos, por muito tempo.
Nosso candidato venceu. E venceu bem. Na certa ele teve nossa contribuição. Meses depois fomos ao palácio nove de julho (parque Don Pedro) sede do legislativo paulista receber os 400 mil cruzeiros. Quando o cheque chegou na mão de nosso vice-presidente Malvino Pereira, verificamos que estava escrito quarenta mil, e não quatrocentos mil. Reclamamos mas eles disseram que era isso que tinha sido combinado. Mas percebi que no recibo que estava em cima da mesa e que ainda não tínhamos pegado para assinar estava escrito quatrocentos. Não recebemos, porque não queríamos assinar uma coisa, e receber outra. Daí para frente nunca mais acreditei em políticos.