Vésperas do Natal, a cidade está toda iluminada. “Papais noéis” por todas as partes. Um clima festivo e sempre a mesma correria. Parece que todos foram às compras no mesmo dia, horário e shopping. As ruas repletas de carros e as calçadas cheias é uma coisa só. Faróis, buzinas, músicas, conversas se fundem, se confundem.
Pessoas carregando sacolas, pacotes e o sufoco para quem não tem automóvel conseguir uma condução. Filas imensas também, parece que todos pegam o mesmo ônibus.
No ponto da Eusébio Matoso, defronte ao shopping Eldorado, depois de muito sacrifício, a moça robusta trajando uma bata negra com listras horizontais brancas, o que a deixava ainda mais roliça, entra no ônibus carregando embrulhos que tapam sua visão e consegue a todo custo chegar à catraca. Constrangimento geral. Ela não consegue passar. Fica entalada.
Lógico que nem todos são santos. Algumas pessoas dão risadas, outras ensaiam piadinhas, mas, dado o espírito natalino, há solidariedade. Pacotes caem sobre os passageiros. Como em um estádio de futebol, há até torcida para que ela consiga passar.
Em um esforço descomunal, uns a empurram, outros a puxam, ela finalmente transpõe o obstáculo. Os passageiros aplaudem com palmas e assobios. Ela não se dá, se abala. Apresenta um baita jogo de cintura, sem bem que mais jogo do que cintura. Olha para todos e agradece a ajuda com palavras carinhosas e um tanto jocosas:
– Fiquem sabendo que eu já tive uma cinturinha de saúva. Agora sou uma tanajura.
Todos caem na risada.
Para descontrair ainda mais o ambiente brinca com a garotinha sentada no colo da mãe, que estava com chupeta na boca:
– Sabe por que eu fiquei assim? É de tanto chupar chupeta quando era criancinha como você. Fui inchando, inchando…
Ao invés de amenizar a situação, é criado um fato embaraçoso, a menininha se mostra apavorada e desembesta a chorar. A mãe tentando consertar a situação fala para a filha:
– Pare de chorar, você não ganha presente do papai Noel. Ele não gosta de criança chorona.
A criança em toda sua inocência com semblante assustado vira-se para a mãe e aos soluços grita:
– Mamãe fala para o Papai Noel que eu paro de chorar, largo a chupeta, mas não quero ficar feia como ela – arremessa a chupeta com toda a força pela janela do ônibus.