A despedida

Era 1º de novembro de 1980 quando fizemos nossa despedida, ou bota-fora, como dizíamos.
 
Foi em um clube do colégio Santo Agostinho, os padrinhos de meu filho Roberto, Toninho e a Sivanira, que organizaram tudo.
 
Quase no final da festa, o meu pai propôs para o Gilberto fazer uma competição que ele fazia no Undokai (gincana poliesportiva promovida pela colônia japonesa do Rio Grande da Serra), que consistia em correr esvaziando uma garrafa cheia de cerveja na boca sem derramar.
 
Quando resolveram realizar a prova a cerveja já tinha acabado, então o Gilberto falou para ele:
"- Seu José, deixa para a próxima vez."
 
Ele respondeu:
"- Na outra vez não estarei mais aqui."
 
Na despedida no Aeroporto de Guarulhos (2/11/1980), ao abraçá-lo antes de embarcar para o Jari, meu pai falou:
“- Filha, você está indo para muito longe, se acontecer alguma coisa comigo não precisa vir, pois não dará tempo."
 
Eu respondi:
"- Deixa disso pai, você está bem de saúde."
 
Em 3 de dezembro de 1980 ele morreu de infarto fulminante, aos 66 anos.
 
Realmente não consegui chegar a tempo, pois no Jari só saia e entrava de navio ou avião, era final de ano e o pessoal estava entrando em férias, ninguém cedeu seu lugar para que eu e meu filho Roberto pudéssemos vir para o enterro de meu pai, ele foi cremado uma semana depois.
 
Consegui uma passagem de avião um mês após a sua morte, vim para São Paulo na tentativa de confortar minha mãe, mas foi um choque muito grande, pois as coisas dele ainda estavam lá no mesmo lugar e na minha cabeça pensava que ele estava viajando.
 
Foi quando a minha mãe falou: 
 
"- É filha, só que desta viagem ele não volta mais."
 
Só então caiu a ficha. Nunca mais o veria. Ele estava certo!
 
Meu filho Roberto estava com seis meses de idade, voltamos para Monte Dourado – PA, após ter ficado com minha mãe por uns 20 dias.
 
Até hoje acredito que de alguma maneira há um certo pressentimento ou aviso que antecede a morte.