Chegamos a Sampa na década de cinquenta. Comparando com os dias de hoje, acredito que estávamos no tempo da pedra lascada. Fogão a carvão e até um fogareiro a álcool para ajudar a fazer a boia. Sem geladeira e a televisão ainda em fase embrionária. Para se ter uma ideia, em 1958 meu primeiro emprego na área de Telecom imperava a telegrafia (código Morse). “Matusalém é a vovozinha! Ah! Bom, tá desculpado.”
Como diz a letra da música do Erasmo Carlos, só que no nosso caso éramos cinco homens dependentes da mulher, onde entra a dona Helena. Fez corte e costura aos dez anos de idade e foi até os 72 anos, trabalhando fora e depois continuou em casa. Foi à primeira das quatro filhas a se casar. O primeiro filho a dona Zota (vovó) veio para ajudá-la nos 40 dias de dieta. Na época dieta de gestante era dieta, vocês estão me entendendo certo? A fase principal era a alimentação, onde mamãe comeu nesse período "canja de galinha" todos os dias. Acrescente mais três filhos com essa dieta em que a vovó não desgrudava um minuto sequer da mamãe. Perguntem a mamãe se ela gosta de carne de frango! Ela não comia, mas para nós era feito no capricho.
Era ela quem matava (destroncava) e soltava no chão, ficando pulando para lá e para cá até morrer. Colocava a em um tacho de água fervendo para ficar mais fácil para despenar. Tinha uma parte da galinha (peito) um osso em forma de "v", que era disputado (eu pedi primeiro) que deixávamos secar para tirar a sorte. Puxava cada um para um lado e o que ficava com a parte maior fazia um desejo, mas não podia contar qual desejo foi pensado. Acredito que muitos de vocês não gostavam do curanchim da galinha acertei?
A mamãe herdou de seu pai o costume de tomar um cálice de vinho todo domingo. Na vendinha do Zezinho na Rua Henrique Sertório no Tatuapé, passou a comprar o vinho do Porto "Adriano" que a esposa do Zé recebia de Portugal. Quando passou pelo seu médico em consulta, a dona Helena perguntou ao Doutor Abraão se o vinho do porto fazia mal, tendo ele afirmado que sim. Mas doutor dizem que vinho faz bem ao coração. Fazer bem ele faz, mas faz mal ao bolso porque é muito caro. Compre qualquer vinho nacional que são dos bons, e olhe só, pode comprar até o "Sangue de Boi" que é mais barato e a senhora encontra em qualquer boteco. Risos…
A mamãe gostava de um bom bacalhau e lá na vendinha era o "Norueguês". Em casa somente ela, o papai e o Antonio Carlos que comiam, por isso dava para comprar o melhor. Agora quando juntava a família toda, dava mais de 40 pessoas, mesmo comprando um bom pedaço não dava para todo mundo. Para compensar aumentava as batatas e no final chegava o nosso primo "Lourival" perguntando se a "batatada" estava pronta. Como a carne do bacalhau é forte, as batatas levavam esse gosto e enganava todo mundo. Sorte era quem conseguia receber um pedaço junto com a batata, mas, o mais azarado recebia só o espinho.
A macarronada lá em casa era a básica como em qualquer lugar; a massa, molho de tomate e queijo parmesão. Eu brigava com o Paulo para ralar o queijo, porque a sobra a gente comia. Lembram-se daquele "ralador" do nosso tempo que era feito de lata de óleo todo perfurado (acredito que era furado com prego), que ralava mais nossos dedos do que o queijo. Agora vou falar para vocês de uma sobremesa conhecida no mundo todo que é o "Pudim de leite condensado". Pois bem, se vocês perguntarem para qualquer parente meu se já comeram pudim melhor do que o feito pela dona Helena, receberão um não, no que eu concordo e assino em baixo. Pelo cheiro que estou sentindo, parece que esqueceram alguma coisa no fogo…corram lá.
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