A Espanha! Terra de Castela, do flamenco e da paixão gitana. De Picasso, Miró e toradas.
Meus avós vieram de Málaga, região portuária que recebeu forte influência árabe, o que temperou o sangue caliente desse povo que fala com o olhar. Como muitos imigrantes daquela época, meu avô chegou sem nada, mas de corpo e alma para abraçar uma nova terra. Veio fugido num porão de navio, em meio a sacos de batata. Já tinha um tio estabelecido na cidade de S.Paulo, que o acolheu de início. Depois, ele passou a trabalhar com o que veio a se tornar seu ofício maior: laticínios e confeitaria. Foi funcionário padrão da Vigor, na Joaquim Carlos, Brás, tendo trabalhado lá por mais de 40 anos. Seu nome está nos anais da empresa. Por lá também passaram dois tios meus e meu irmão mais velho. A Vigor depois o presenteou com um carro de tração animal, que passou a utilizar para entregar leite e os deliciosos confeitos feitos por ele mesmo, como o inesquecível mantecal.
José Florido Mérida (sim, há parentes lá, na cidade homônima) tinha espírito aventureiro, concebeu 14 filhos, entre eles minha querida mãe, Elisa Florido Bueno, amava o Brasil mais do que muitos brasileiros, acolheu muitos patrícios e não patrícios, inclusive o futuro dono dos macarrões Adria, um português, e chegou a se aventurar pelos Alpes Chilenos, ficando longe da família e do Brasil querido por cerca de um ano, para voltar depois, ferido da neve, barbado, mas feliz por alcançar um pico tão elevado na geografia andina.
Faleceu triste, nos braços de minha mãe, desencantado com a ingratidão dos filhos. Mas sua semente germinou na terra que amou tanto. Vários netos, bisnetos e até tataranetos. Assim foi a história de um espanhol em solo brasileiro. Simples, porém altiva e honesta.