Escadarias do Bixiga…

Ano de 1950, cheguei à São Paulo junto com minha, adorada e saudosa, mãe Izabel que era linda, tinha meigos olhos azuis. Era viúva e me trouxe para um tratamento, por causa de um acidente que sofri na região rural de Joinville – SC. Tinha quebrado o braço na queda de uma árvore, minha mãe veio passar o Natal e vendo-me neste estado ficou preocupada, prontamente encaminhou-me para São Paulo, de avião, para ser internado no caríssimo hospital que fica localizado no bairro do Pacaembu, denominado Samaritano, as economias que foram ganhas, com suor, nas casas de famílias, gastara com o meu tratamento, senão o fizesse ficaria defeituoso.

“Aí” que nós temos que valorizar, a cada minuto, as pessoas, que em vida, deveriam ser valorizadas, como dizia mamãe que trabalhava como governanta em uma mansão situada na Rua dos Ingleses na Bela Vista, um bairro boêmio. Quando eu era um menino novo na cidade, fiquei deslumbrado por ela, que era bem diferente do local de minha origem, a capital era arborizada; possuía lindas praças; tinha o encanto do centro; com suas ruas que eram limpas; com pessoas alegres; simples e despreocupadas; trânsito com poucos veículos; bondes; com seus motorneiros elegantes, passando lentamente pela Brigadeiro Luiz Antonio, avenida onde junto com mamãe tomava uns sorvetes deliciosos, em uma conceituada sorveteria.

“Gente”, porque isso passou tão depressa, eu pergunto aos meus “botões”, todavia continuando, o que mais me chamava atenção era a extensa escadaria do Bixiga que saia da Rua dos Ingleses, era a ligação com a parte baixa, se não me engano era a Rua Manoel Dutra. A cena, aos meus olhos, era então deslumbrante, os antigos sobrados, as casas simples com flores, se viam ao longe, o aspecto bucólico era apresentado.

Os armazéns secos e molhados eram frequentados por poucas pessoas, impregnado com um cheirinho característico no ar, e as rádios de válvula rudimentar inundariam com suas músicas o ambiente, entre elas, lembro-me muito de um samba: Lata da água na cabeça, lá vai Maria, era o prenúncio do Carnaval, sentia-se as emoções dos coloridos blocos do bairro que ensaiavam, ouvia-se nas rodinhas dos simplórios moradores os comentários da realização da Copa do Mundo de Futebol, naquela época já era paixão no Brasil e as cantinas italianas começavam a ser criadas.

O Bixiga lá embaixo era o lenitivo para este garoto que ficaria encantado com o instante, principalmente, com a ida, obrigatória, aos domingos para cumprir o rito religioso, que era a missa na igreja Acaropita.
Para sempre ter essa emoção, era preciso, sempre, descer a escadaria do Bixiga, local marcante para muitos e que estará fotografado, eternamente, em nossas mentes.

Finalizando tive que ir posteriormente para um colégio interno onde fiquei por muitos anos, pois não tinha um lugar para ficar junto com a minha mãe, perdendo, momentaneamente, a magia de desfrutar desses momentos inesquecíveis…

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