Em tempos de juventude, existe espaço para tudo: tempo para o comprometimento na escola, para os sonhos, para os projetos de vida, tempo para muitas conversas, descobertas, críticas, distrações e tempo para rir. O curioso é que, na juventude, a gente pensa que tem algumas certezas e de que sabe muito. Acredita piamente que os mais velhos sabem bem pouco, têm pouca luz, não têm graça. O jovem crê na sua força eterna, em ser dono de toda a história e que os outros "não falam nada a ver".<br><br>Na adolescência tudo existe, tudo anda, respira e o mundo adulto é taciturno, confuso, cheio de responsabilidades insuportáveis, duríssimas e ininteligíveis. A minha juventude foi assim: com medo constante da morte do pai, medo das suas dores infinitas, dos seus gritos e das dezenas de internações na Beneficência Portuguesa. Tempos de uma seriedade mórbida e a esperança era uma palavra vã, sem brilho, sem porvir. Foi uma adolescência que eu não desejo a ninguém. Nenhuma festa, poucos sorvetes, infinitas negativas e a fuga da realidade através dos poucos livros que eu tinha e um sonho: o futuro terá que ser melhor e eu haveria de construir esse tempo futuro. <br><br>Era uma soma extremamente dolorosa: angústia, solidão, depressão que em mim se manifestava em não querer comer, nem mesmo me arrumar. O mundo era cinza e até hoje odeio essa cor que cheira à morte. Mas Deus é grande e oxigênio existe. O meu oxigênio se chamava Ana Isabel Soares, uma mocinha negra, filha de uma senhora muito risonha, trabalhadora nas casas de família e muito gentil em todas as ocasiões. A Ana também era uma pessoa excelente, brilhante, que gostava de comer e era bom humor o ano inteiro. Pessoa de sorriso largo, não sabia se desesperar, mesmo tendo enfrentado umas tantas enchentes e perdido o pouquíssimo que tinha no cortiço onde vivia, somente com a mãe, próximo ao Largo do Cambuci.<br><br>O nosso colégio era o máximo! Colégio marista, o Nossa Senhora da Glória, era o espaço para uma aprendizagem possível naquele início dos anos 70. Biblioteca arcaica, com livros de capa dura dos tempos de estudante dos Irmãos, nada convidativos, tentávamos aprender alguma coisa. Nada de revistas ou algo colorido, interessante aos olhos juvenis, mas amávamos o colégio com tudo o que tínhamos de bom no coração porque aquele seria o nosso único espaço de construção possível no meio de uma realidade tão cimentada pela negação da vontade.<br><br>Tínhamos como professor de Física o Ir. Leonardo. Homem de uma erudição única era de um gigantismo impressionante na alma e extremamente ultrapassado no ato de lecionar. Nascido na Itália durante a I Guerra, jamais mencionou esse fato, mas calculo que deve ter sofrido as agruras da fome porque jamais perdeu o perfil esquelético e acinzentado, o que chamava a atenção até das cozinheiras do colégio. Não conseguíamos compreender o conteúdo e nem sequer o vocabulário empregado, mas tentávamos. Mas tinha um coração atento às minhas angústias e algumas vezes teve a paciência de me ouvir. O seu falar era dos sábios, a sua elegância moral era absoluta e inseparável do cotidiano. Cabelo extremamente curto, mas longa era a sua decência, um homem ímpar em caráter e zelo pelas ferramentas de trabalho e cuidado com a vida. <br><br>Então, minha querida amiga Ana e eu resolvemos ser eruditas também. Da forma mais infantil, pura, resolvemos procurar palavras interessantes no dicionário. De tarde, depois das tarefas, o dicionário se tornava o nosso melhor companheiro. No dia seguinte, era só gargalhada! Uma tentava se gabar dos novos conhecimentos, mas o objetivo mesmo era deixar a outra com cara de idiota com essas palavras novas, improváveis do vocabulário de qualquer pessoa de saber mediano. Em uma das aulas, a minha ilustre amiga me cutucou e, munida de uma caneta e papel, me disse: "coloque aqui o seu jamegão". Obviamente eu não sabia o significado da palavra. E ela se pôs a rir. Depois de alguns minutos, ela se declarou: "jamegão é assinatura" (risos).<br><br>Eu não me contive: “se você me provocar eu vou chamar o beleguim". E ela não sabia que beleguim era guarda… e até hoje me refiro assim à turma da farda. "Ana, por que hoje você veio à aula com essa blusa rubicunda?" E dá-lhe gargalhada. Rubicundo é vermelho.<br><br>Mas duro mesmo era quando ela estava na letra “J”. Disse que eu era janota e o meu cabelo havia ficado jalne. Para os que não brincaram, essa forma "janota" quer dizer elegante e "jalne" quer dizer amarelo-ouro. E assim íamos montando um vocabulário um tanto curioso, dinâmico, esdrúxulo e, em uma amizade macia e sem nenhuma malícia, íamos nos divertindo naqueles tempos de dificuldades e de penúria moral, e, para quem era tão jovem, rir era uma forma de sobrevivência e de resistência, afinal, queríamos apenas viver de verdade, com a vontade única da juventude que se pretende sadia. Viver de uma forma janota até ficarmos rubicundas de tanto rir… Mas bem longe do beleguim.<br><br><br>E-mail: [email protected]