Lembro ainda do dia que cheguei a São Paulo. Dia 20 de dezembro 1984, eu tinha 17 anos e com meus pais e irmãos mudamos de Grumo Appula, uma cidadezinha do sul da Itália para São Paulo.
Nasci no jardim São Luis e com 2 anos de idade com minha família me transferiu para a Itália, e voltei só naquele dia, depois de 15 anos.
Fomos morar em Santo Amaro, lembro como fiquei assustada com a cidade, enorme, caótica e ao mesmo tempo fascinante. Vários sentimentos me ocorreram, emoção ao ver a exuberância da vegetação, surpresa quando descobri o perfume inebriante da manga, triste quando vi um catador de papel no Largo Treze de Maio comendo com as mãos os restos de comida em uma marmita.
Meu Deus, eu sempre havia visto isso na televisão italiana, mas ver de perto era perturbador, chorei muito. Ninguém se preocupava com ele, nem o notavam.
Lembro que decidi que não aceitaria aquela realidade com indiferença e que faria alguma coisa. Participei de passeatas pelos direitos humanos, gritei me engajei, era feliz e viva.
Mas percebi que eu não era ouvida e me consideravam uma revolucionária. Assim, de repente, um dia eu também não ouvia mais minha voz. Morreram naquele dia os sonhos de uma garota idealista. Aprendi com o tempo a enxergar só aquilo que me convinha, me tornei uma pessoa tranquila totalmente conformada pelo sistema. Uma perfeita paulistana.
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