Escrevendo recentemente a um amigo, relembrei meu início profissional. Se hoje o primeiro emprego é difícil, pela enorme demanda de trabalho feita pela multidão de despreparados formandos, lançados à rua pelas faculdades, naquele tempo também o era, por outros motivos: o amadorismo dos empregados e patrões, os cargos de chefia praticamente vitalícios, ao contrário da mutabilidade de agora.
Era muito duro furar o bloqueio dos mais velhos. Não sei como e porque, uma tia de Piracicaba indicou-me a uma pequena agência de publicidade, a London, na Conselheiro Crispiniano.
Um velho prédio, com sacadinhas voltadas para o Mappin. E não só para ele, pois haviam apartamentos incrustrados na massa do grande magazine. Víamos ali pessoas idosas regando suas plantas, nas largas varandas, com gaiolas de pássaros.
O dono da agência, ainda jovem mas muito enrolado e ambicioso, usava o pseudônimo de Ianni Jr. Sua principal atividade era a produção de um programa musical italiano para a Tv Tupi, "Vozes d´Italia", ou algo assim. Então, porque o nome London? Napoli seria mais adequado, talvez.
Era meu primeiro contato com um escritorio. Deram-me uma mesa, numa salinha escura e algum material para trabalhar. Mas os grossos anuários de publicidade, arte e fotos eram fascinantes. Então, publicidade era isto que estava naqueles livrões importados?
A agência era frequentada pelos astros do programa, uma prima donna, creio que era Lyris Castellani, o maestro Gallucci, sempre muito bem vestido e muito mal humorado, e outros artistas ou candidatos a tal.
Uma destas era uma encantadora mocinha, muito vivaz e inquieta, que tinha, como eu, dezessete anos. Esbelta, a pele muito clara, cabelos curtos acobreados, parecia um anjo caído naquele obscuro escritorio. Muito gentil, mostrava-se interessada em mim e meu trabalho.
Mas se era ela que "sembrava un angelo", eu é que era totalmente inexperiente em mulheres, bem como no mais das coisas da vida. Depois, não passava de um estudante pobre. Como ousaria insinuar-me junto àquela beldade, com certeza tão disputada?
Outra pessoa simpática comigo tinha um nome exuberante: Paulo Paulista, seguido de um sobrenome ainda mais quatrocentão. Era boa gente, e com certeza nos tornariamos amigos, se eu houvesse continuado ali.
"Ma le cose non andavano cosí bene, in quello lavoro". Ianni Jr. não tinha a menor intenção de pagar-me um salário, por pequeno que fosse. Queria que eu fizesse ponto ali, executando os trabalhos da casa e prospectando "clientes próprios". Como se eu, quase um garoto, tivesse a mínima condição de fazer isto!
Uma coisa, porém, ficou patente: já naquela época eu tinha jeito para criação em propaganda. Um dos clientes era um fabricante de famosas gravatas, cuja marca não lembro,(talvez Duplex) mas sim o slogan – "o segredo está no nó!" – Tinha de fazer uma encenação para a tv, hoje seria um comercial,e bolei um detetive, vestido de Sherlock Holmes, examinando a gravata, ou o seu nó, com uma lupa.
Isto foi ao ar, com bastante sucesso. Mesmo assim, nada recebi. Por isto, saí desse primeiro "emprego", que, de qualquer forma, serviu-me para indicar o caminho a seguir. Soube, tempos depois, que Ianni Jr. teve serias complicações com a justiça. O que não deixou de ser um triste consôlo.
Tive outros empregos pelo Centro. Depois este foi perdendo sua importância para outras regiões, como a Paulista. E as agências de propaganda prontamente marcharam para as novas tendências. Assim, muito raramente voltei a frequentar o Centrão.
Muitos anos depois, procurando uma peça rara de câmera fotografica, eis-me na Cons. Crispiniano, encarando o velho prédio da ex-London. Aquele quarteirão fora tomado, quase totalmente, por firmas do ramo fotografico, encabeçadas pela Fotoptica.
O prediozinho, ainda mais feio e decadente, ainda lembrava em muito o da minha época, e as estranhas varandas agregadas ao Mappin continuavam existindo. London Publicidade. Não havia passado mais que um mês ali, no qual deixei um pouco da minha mocidade e muito da minha inocencia.