Já que estamos falando de músicas inquietantes, vamos fazer um esforço de memória e tentar lembrar de algumas que marcaram indelevelmente nossa mocidade.
Fanático por cinema, uma ocasião fui com minha namorada, primeira e única, até hoje (vá ser antiquado assim na Polinésia setentrional), assistir ao lançamento de um filme que fez muito sucesso, pelo tema e pela música, no cine Itapura, na Rua Glicério. O filme era "Sementes da Violência" com o recém falecido Glen Ford, Vic Morrow, Sidnei Poitier e outros(as).
O enredo foi do grande escritor de policiais, Ben Hetch (não sei se está certo) e a música, "célula mater" de todos os "rocks" que surgiram depois: "Around the Clock" com Bill Haley e seus Cometas, isso no início da década de 50. Todo mundo saia do cinema bamboleando, extravasando tudo o que sua emoção assimilara do filme e da música. Duro como ninguém, no dia seguinte, segunda-feira arrumei uma grana e fui comprar a "bolacha preta", 78 rotações, na "Lojas Assumpção", na Rangel Pestana (patrocinadora do famoso programa "Parada de Sucessos") fila enorme, tive que enfrentar, mas valeu a pena. Quando o Haley começava, com sua voz esganiçada a contar: "ono, too, tri… e por aí afora, sai de baixo, menino, a gente ficava tomado de um torpor, um frenesi, como se uma entidade diferente viesse habitar seu corpo (eu acho que seria um sucedâneo das atuais drogas, só que aquela não fazia mal, só bem) e se punha a "tocar" guitarra numa vassoura, deixando aquela mecha glostorada de cabelo cair na testa, pela santa mãe do padre, que delícia e que saudade, meu Deus do céu.
E as loucuras do Spick Jones, alguém se lembra? Ele gravou clássicos da música erudita como "Suíte quebra Nozes", "As Czardas" "Poeta e Camponês", "O vôo do Bezouro", "A valsa das flores" e mais um monte delas, com arranjos em que se ouvia de tudo, como latidos de cachorro, miados, arrotos, espirros, tiros (um deles se ouve o tiro, a velocidade da bala e um gongo quando a bala atinge seu alvo e depois, ao contrário: gongo, velocidade e tiro)numa pantomima, estonteante, com piadas em inglês. Tem uma do cachorro levando uma pancada e sai correndo com o uivo: ain, ain, ain… Formidável.
Outra recordação era a dos tangos. Você entrava no barbeiro, pelo menos no Brás era assim, o rádio ligado, não lembro se era Kosmos ou Panamericana, Ricardo Dias, famoso difusor dos tangos no Brasil, apresentava um programa só de tangos. Era Francisco Canaro, Juan Darienzo, Libertad Lamarca e o insubstituível Carlos Gardel. “!Cuesta Abajo!", “El dia em que me quieras", "Por una cabeza", "Mi Buenos Ayres querido", junto com o recém surgido Hugo Del Carril, na época.
Nos nacionais, a época era dos grandes Orlando Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Dircinha e Linda Batista, Isaura Garcia, todos eles lançando seus sucessos do "próximo carnaval" como "Que Rei Sou Eu", "É dos carecas que elas gostam mais" e por aí afora.
A guerra terminada, ressurgiram os cantores italianos em programas especiais, como o dos irmãos Enzo e Guido Capodaglio, apresentando Daniele Serra, Titto Schipa, Beniamino Gigli, Carlo Buti, Caruso, Giusepe Di Stefano etc. Belos tempos, de nossa memória, ninguém vai tirar o que herdamos de alegria, emoção, tristezas e paz. Se era melhor ou pior do que este, não sei, mas pelo menos não precisávamos de drogas pra nos entusiasmar. Era mais correto, saudável e estimulante (e mais barato…).
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