Às vésperas do golpe militar de 64, o General Golbery teria dito que “o governo Jango era frágil, não resistiria e cairia como um castelo de cartas”.
E foi isso que aconteceu. Jango foi para o exílio, os golpistas tomaram conta do poder e a rota de vida de muita gente – inclusive a minha – foi alterada.
Por essa época meu irmão mais velho, então em idade militar, convenceu meu pai a vir para São Paulo. Se Jango tivesse lutado, creio que muita coisa não teria acontecido, inclusive essa nossa mudança, que tantas alegrias e transtornos (muito mais transtornos) trouxe. Pelo menos não nessa época.
Quantas coisas novas – já velhas e até esquecidas – aconteceram conosco.
Penso que as histórias são tão iguais, mudam, claro, as personagens, mas no fundo tudo é tão incrivelmente semelhante. Esta é a síntese da vida e da literatura, traduzidas em seu formato mais brilhante pela frase “a vida imita a arte”.
É isso que tento fazer quando escrevo. Resgatar momentos que outros já viveram com igual – mas não necessariamente igual – intensidade.
Voltando ao tema “nossa vinda pra São Paulo”, eu era bem pequeno, mas certas coisas não me saem da lembrança, embora eu não possa afirmar que tenham existido da forma que as recrio hoje em pensamento.
Lembro de uma máquina de costura enorme às margens da Anhangüera (publicidade instalada ali pelas imediações de Jundiaí); recordo o 1º bonde que vi, em Campinas; as ruas excessivamente policiadas (estávamos nos primeiros dias de Abril de 64); o odor do rio Tamanduateí, que ainda persiste.
Coisas assim, fragmentos que compõem uma vida. Às vezes, parece tão pouco, outras vezes parece tanto.
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