Era em um espaço da pequena travessa da Rua Periquito, cujo nome não me recordo, que dona Lurdes vendia suas flores. A Avenida Santo Amaro não tinha trânsito e a Hélio Pelegrino nem existia. Dona Lurdes era uma portuguesa falante, por vezes ríspida com sua freguesia e durona em demasia com suas funcionárias, uma negociante de mão cheia que sabia vender suas flores como ninguém! Seu estabelecimento era super simples, bem rude mesmo e uma aguaceira misturada com folhagens, espinhos, papel e fitas tomavam conta do chão, constantemente.<br><br>Sua freguesia era grande, formada pelas pessoas do bairro, das ruas próximas e até dos bairros distantes. Alguns amigos meus tinham muito carinho por dona Lurdes, pois ela os ajudava na escolha das flores para as namoradas, para as paqueras e, também, para as futuras sogras e com paciência ela ouvia suas lamúrias, suas confissões de amor e, por fim, depois de muito chororô e blá blá blá dos meninos, ela acabava dando um desconto e, às vezes, deixava o valor pendurado para ser pago na próxima compra.<br><br>Ah! Quantas meninas em suas festas de 15 anos receberam seus arranjos! Eu mesmo, na minha festa, tive minha casa repleta de seus arranjos variados e ramalhetes com rosas vermelhas e brancas. Minha mãe costumava receber muitas flores, quase sempre compradas na dona Lurdes, dos pretendentes de suas filhas! O meu pai se divertia, pois era uma competição para ver quem mais agradava a "sogra". Durante muitos anos, dona Lurdes reinou no mundo das flores por sua simplicidade, pelas flores sempre bonitas e pelos seus preços, na época, imbatíveis. <br><br>Todos os dias, já de madrugada, lá estava ela tirando os espinhos das rosas, ajeitando as flores frescas nos baldes com água e, assim, seu dia corria com muito trabalho, sem descanso e sem hora para fechar, inclusive nos finais de semana. Não se cuidava e passava praticamente o tempo todo com suas roupas, avental e os pés encharcados de água. E em um dia qualquer soubemos que a portuguesa dona Lurdes havia deixado de reinar entre suas flores e fregueses. Correu pelo bairro o falatório de que um sobrinho, seu único herdeiro, assumiria seu estabelecimento. Depois de alguns anos o espaço da pequena travessa da Rua Periquito virou uma grande floricultura.<br><br><br>E-mail: [email protected]