Sou fã do Piriri. Sempre me lembro desta figura que cantou e encantou a Vila Madalena dos anos 70 aos 90, e incomodou muita gente também enquanto viveu. Chamava-a de Vila Woodstock; pelo menos assim imaginava e vivia como se aqui fosse. Ele próprio se intitulava o nosso Jimmy Hendrix tupiniquim.
E assim vivia como tal, pedindo a todos “um dólar ou um real” para um grande show que aqui haveria, mas nunca houve, porém, que poderia ser “um dia real”, e profetizava nosso ídolo difícil de engolir, o tal Piriri.
Lembro sempre dele, quando vejo por aí, pretendentes a famosos, não só a artistas, mas principalmente artistas. Esta palavrinha estúpida da moda, “guerreiro,” que militariza e credencia todo aquele aspirante ao sucesso fácil, deturpa o significado da palavra, ofende a história de quem realmente foi um guerreiro, e transforma o pretendente a famoso num “babaca” lutador de vitrine, que nunca lutou em nenhuma batalha ou coisa que valha. Fazem de tudo e pagam qualquer preço, jabás e anéis para escalarem o topo da fama, chegar ao estrelato, sair na telinha da televisão e afins, até serem reconhecidos pelo grande público como “guerreiros” etecétara e tal.
Depois, ficam em crise quando são parados na rua ou reconhecidos, querem o anonimato, dizem ter saudade da liberdade que desfrutavam, querem paz e o direito de não serem molestados, fotografados, interrogados por bobagens, por meros afagos de fãs, assédios e tal. Encheram tanto para serem famosos, agora não querem papo? “Vá usar vidro fumê”, diria Piriri.
Assim são muitos. Estes tipinhos comuns estão em todas as áreas, não só na música. Piriri, se fosse vivo, mandava todo esse tipo de gente carreirista metida andar.
São poucas, mas há exceções. Por exemplo, um baita cara legal, artista, simples, atencioso com todo mundo aqui na Vila, para e conversa com cada um que o cumprimenta: é o Zé Geraldo, está sempre num simpático botequinho daqui da Wisard, jogando sinuca e conversa fora com garçons e taxistas. Na boa. Aliás, fez uma linda música falando das ruas da Vila, que toca nas rádios a todo o momento. E muito antes disso, continua lotando seus shows há tantos anos. Não é “guerreiro nem gladiador.” Faz parte das “aves raras”, pessoas com ‘’P’’ maiúsculo, sem pompa, sem pose, sem pretensão.
Lá vem o Piriri de novo! Cada um que o conheceu tem uma história diferente para contar. Às vezes, imagino-o descendo a Harmonia gingando, cheio de penduricalhos, com a pasta de projetos manchada de rodelas de copos, bijuterias, pulseiras, boina, imensos óculos escuros e parangolés.
Ele não sonhava em querer e não pretendia virar artista; ele era o cara que escolheu ser, o grande e único roqueiro da Vila Woodstock à espera do mega show que iria rolar um dia. Parafraseava Chico, dizendo que este show seria tão “imenso que o próprio tempo iria parar pra ouvir”. É isso aí. Agora os céus que o aguente.
Cada dia dormia num lugar e achava isso um barato. Nas noites de verão, depois de muito rock no Sujinho, ia dormir o pouco que restava da noite no cemitério São Paulo sob algum túmulo que julgava interessante e digno para um pop star. Dizia, olhando para o céu, “achar nada mais que justo, um astro ficar perto de suas estrelas e nada mais”.
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