São meados de 1999, vejo dez ou doze meninos enfileirados a ponto de exercerem um chute. É domingo, está calor e o clima é dos melhores.
Nem me lembro do que estava fazendo quando decidi iniciar esse relato. É um relato sem ambição qualquer, mas que tenho certeza que será lido por alguém que traçou o mesmo caminho citado nesse simples texto.
Esquina da Rua São Marum com a Avenida Juscelino Kubitschek, com uma feira tradicional aos sábados, dias esses em que eram realizados os nossos treinamentos. O local servia de “restaurante” para mim e para meu grande amigo, João Paulo, parceiro que a distância não foi suficiente para apagar nossa história.
A Várzea sempre foi respeitada, mas o que eu via ali era diferente… Um misto de rapazes oriundos da classe média alta, descendentes de pais que frequentavam o local a bem mais tempo do que nós poderíamos imaginar; misturados com pobres carentes que restaram nos últimos barracos da então Chácara Itaim, dos pequenos moradores na Favela Funchal (presente na Vila Olímpia até hoje), além de jovens que vinham de todos extremos periféricos de SP.
O que eu conheci naquela época era mais do que se entendia sobre futebol; garotos de dez a doze anos, classificavam o futebol como aquele que se via as 16h na Rede Globo, pelo menos nos anos 90, onde seus “heróis” eram aqueles que marcavam gols e davam entrevistas.
Nós tínhamos um campo com medidas “semi – oficiais” e um campo society de medidas reduzidas, campo no qual os mais novos treinavam fundamentos exaustivos durante anos, que eu só soube absorver as vantagens depois de muito tempo, pois hoje em dia, é raro ver um belo cobrador de escanteio, falta, etc… Hoje sei até cabecear com os olhos abertos graças às exaustivas vezes de tentativas aéreas.
Sábados treinávamos, e aos domingos nós éramos monstros, que saíam pela cidade desafiando grandes esquadras (Corinthians, SPFC, Banco do Brasil, Banespa, Paulistano, Ipê, Santo Américo, Macabi…).
Me lembro freqüentemente de uma partida no dia da final da Copa do Mundo de 2002, lá em Itaquera, contra a equipe sub – 15 do Corinthians da época. Ganhamos de 2 x 1 com dois gols do nosso goleiro reserva (Joilson), que naquele dia resolveu ingressar na linha. Foi emocionante ganhar do meu próprio time do coração, foi histórico!
Eu poderia contar passo a passo esses anos que sucederam em paralelo a minha vida na transição da infância à adolescência e que, no meio de 2004, teve fim. Uma discussão, um atrito, uma idiotice. E uma grande falta de comprometimento de minha parte. Nunca tive talento suficiente para ser profissional (apesar de ver vários que apresentam bem menos intelectualidade futebolística do que eu), mas durante certo tempo, o futebol e o canto já não eram mais as minhas prioridades.
Após bom tempo de reclusão, tive a infeliz notícia que a então situação jurídica dos espaços ocupado pelos clubes Canto do Rio, Clube do Mé, Marítimo, Clube do Caneta, Grêmio Itororó, etc. Eles perderam direito de ocupar os terrenos em questão, processo que vinha se arrastando há anos…
Sinto falta, sinto muita falta, creio que seria um homem muito melhor se tivesse a presença do ambiente que me cercava no início da época passada.
Parque Santa Edwiges, Zona Sul, São Paulo, SP, Brasil
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