Dr. Gastón entedia de tudo…

Ao assumir a gerência geral da empresa, Dr. Gastón aplicou-se em demonstrar grande erudição, além de amplos conhecimentos de administração. Dizia ser quase médico, expert em lançamentos de produtos, exímio poliglota que falava quatro idiomas fluentemente. Todos comentavam e ele consentia, era o entendido. Dúvidas que houvesse, dissipava-as, pois entendia de tudo.

Ele me agradava demoradamente, até secretária exclusiva aprovou e mandou contratar imediatamente, dando mostras de rapidez e liderança.

Marcou-se a reunião de transferência de cargo. Ao assumir a função oficialmente, o Dr. Gastón promoveria um jantar de confraternização com alguns funcionários, após a investidura no cargo.

No entusiasmo do evento, sua assistente se esqueceu de incluir na lista de convidados a minha nova secretária. Encantado com o novo projeto de trabalho e preocupado com as exclusões, quis convidá-la, utilizando o meu antigo sarcástico humor:

– Você quer ir jantar na terça-feira?

– Terça eu não posso, outro dia convida que eu vou.

Assustei-me com o mal-entendido e com a facilidade dela em aceitar o convite. Atônito, disfarcei o rubor esclarecendo ser o jantar da posse. Definitivamente, não entendia a linguagem dos jovens.

Passada a confraternização, em vãs tentativas de nova aproximação, sentiu-me perdido nas falas argumentativas dos anos 60. Definitivamente, não sabia lidar com a modernidade. Na lembrança do crédito do convite anterior, criei coragem e, num impulso, disparei:

– Quer jantar comigo amanhã?

Eu necessitava de um dia de margem para criar o álibi em casa.

– Amanhã não posso, estou menstruada, mas na semana que vem podemos ir. (Eu sabia que nessas ocasiões a mulher dizia estar naqueles dias).

Desnorteado pelo novo susto, consegui deixar marcado para a quarta-feira seguinte. Até lá seriam cinco dias de tempo para imaginar as providências do grande dia com a intempestiva mulher.

Naqueles dias mal dormi, passei-os com deliciosa ansiedade, suspirando, rindo à toa, deslumbrado que estava pela oportunidade. Seria a primeira vez que pularia cerca depois de dez anos de casamento.

Senti-me remoçado, teria nos braços uma mulher vinte anos mais nova, seria uma noite inesquecível. O desejo era intenso, a excitação, quase insuportável.

Naquela quarta-feira, com a desculpa acertada em casa, apliquei o perfume Azzaro no corpo, vesti cueca nova e minha melhor roupa e fui trabalhar, com a cabeça voltada para a aventura erótica.

Logo cedo, ao entrar no escritório, o Dr. Gastón me chamou:

– Rubê, preciso ver o budget quinquenal, necessito enviá-lo à Dinamarca.

– Está pronto, doutor, posso lhe entregar um xerox – respondi ligeiro.

– Non! Às dezessete horas você o leva à minha sala! – refutou rispidamente.

Estranhando a ordem, que veio acompanhada dos olhares enviesados e do riso contido da sua assistente, fui preparar uma cópia pelo computador, com melhor aparência.

O expediente terminaria às dezessete e trinta, e calculei que em meia hora o Dr. Gastón terminaria a leitura. O orçamento era para cinco anos. Levando cinco minutos para ler cada ano, no máximo em vinte e cinco minutos estaria liberado para minha grande noite de sexo.

Às dezessete em ponto estava na sala, cópia do orçamento na mão. O gerente geral, com voz macia e gestos delicados – o que me deixou mais intrigado – transferiu a conversa para a sala de reuniões, justificando maior espaço e conforto.

Na mesa oval, sentamo-nos em pontas opostas. Uma nova tentativa de demonstrar ser dispensável minha presença foi abortada pelo Dr. Gastón, que me fitava de modo estranho, como se estivesse a propor alguma coisa.

– Necessito de você. Vamos discutir produto a produto, mês a mês.

Eram dezessete e trinta, todos já tinham ido embora, exceto o Dr. Gastón, eu e a moça, minha nova secretária, que abria e fechava gavetas, como a justificar a tarefa extraordinária.

Perturbei-me com a possibilidade do encontro ter sido segredado à assistente do mestre francês pela jovem afoita, e ele, ao saber, impedir minha saída, numa inveja mesquinha, como se houvesse bons adjetivos para inveja. Mas afastei a hipótese da cabeça, raciocinando: o Dr. Gastón é um cavalheiro, não faria isso.

O diálogo sobre o produto, aparelhos para surdez, continuou. Dr. Gastón me interrompeu, alegando má audição e mudando sua cadeira para perto de mim, ao meu lado direito, na outra cabeceira da mesa. Antes, tirou o paletó e afrouxou a gravata. Estranhei aquela indiscrição.

Ao retomar a conversa sobre o produto, o francês fez um comentário dispensável sobre um modelo de aparelho e, com as mãos tensas e ágeis, apertou meu joelho esquerdo.

Novas dúvidas surgiram em minha tela mental.

A secretária desistiu do affaire e despediu-se de nós dois. Desmoronou o meu castelo de sonhos que, só de lembrar o que estava adiando, fiquei excitado e transpareceu esse estado ao francês, que fitou minha braguilha e iluminou os olhos em direção a ela…

O francês perdera o controle. Perguntou o que o aparelho com ACG faria. Desconfiado, expliquei:

– É um Aparelho com Controle de Ganho, idealizado para os idosos quando perdem parte da audição.

Com a mão a centímetros de meu joelho, descansando nas coxas, o gerente roçou a intumescência com o antebraço. A intimidade me constrangeu.

Havia algo de estranho nesse comportamento. Os olhares em minha genitália constrangia-me. Agora era definitivo, o domínio seria exercido por meio da submissão. Senti-me compelido a agir. Pensei em fugir, mas todas saídas estavam trancadas. Qualquer atitude exacerbada poria tudo a perder, inclusive os cinquenta salários mínimos de remuneração. O assédio aumentava.

O gerente geral mudou de lugar e comentou sobre a perda auditiva dos velhos, para aludir, em forçada analogia e com voz rouca evocando estranha sensualidade, a que os idosos não perdiam o tesão, mudava de lugar. O silêncio do escritório era a única testemunha.

Eu, que sonhara com noite de sexo, teria noite de horror, pensei. Não resistiria à importuna insistência.

De súbito, ruídos de baldes, vassouras e gente interromperam o silêncio. Chegara o pessoal da limpeza.

Desvencilhei-me habilmente para conferir a chegada e ser resgatado na última hora pelos operários da conservação, naquele assédio sexual. Mas, uma certeza obtive: Dr. Gastón entendia de tudo, era um "Entendido".

Anotações de um paulistano (início de 1982 – fui demitido).

O caso relatado nesse conto foi passagem e acontecimento por volta de 1982 em empresa pequena, mas multinacional dinamarquesa. A empresa situava-se na Galeria Califórnia. De início logo desconfiei das predileções de Dr. Gastón. Acompanhando parte do pessoal do escritório, que saía pela porta da Rua Barão de Itapetininga, numa noite quentíssima de verão, ao passar pela porta do Cine Marabá, onde ficavam os homossexuais, a assistir ao desfile dos pedestres, ele cumprimentou um homem que estava lá, e depois abaixou a cabeça até chegar à Avenida São João, esquina com Ipiranga… Ruborizado e tentando disfarçar. Mesmo percebendo sua condição nessa atitude, nunca imaginei que um ex-alto executivo de multinacional farmacêutica tivesse esse descaramento… tentar o assédio.

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