Sonhar é bom quando os sonhos são bons!
Numa noite dessas, sonhei que tinha meus 20 anos e estava jogando futebol no campo do Grêmio Caxingui. O campo continuava do jeitão que eu me lembrava: limitado por um bosque de eucaliptos de um lado, e pelo limpíssimo córrego Pirajussara de outro, beirando uma rua sem calçamento e sem nome, que muitos anos depois, se transformaria na Avenida Eliseu de Almeida.
Não sei qual era o placar desse jogo onírico, mas eu tentava correr para receber um passe, me colocar melhor, fazer um gol e não conseguia me mover, minhas pernas estavam duras, e eu sabia que precisava ajudar meu time a ganhar, mas não podia fazer nada… Na segunda tentativa, sem conseguir correr, comecei a gritar com meus companheiros: "passa essa bola, 'tô' bem colocado".
Então, fui acordado por uma pessoa da Enfermagem, que me olhava fixamente:
– Está tudo bem, Seu Joaquim, fica calmo, acho que o senhor teve um pesadelo!
– Não estou conseguindo mexer as pernas, o que é que está acontecendo? O que é aqui? Que horas são?
– O senhor está na UTI coronariana; o senhor infartou novamente, esqueceu? Foi preciso restringir suas pernas, porque o senhor estava se mexendo demais e poderia sangrar…
Quando a dor passa e você consegue dormir, todo o sofrimento, o medo da morte iminente desaparece; e você até esquece que passou por dois cateterismos cardíacos em 24 horas, e olha que eu digo isso do alto dos meus três infartos e quatro stents implantados em artérias coronárias. Pra ser sincero, eu nem sabia onde estava, porque, quando você dorme após passar por uma situação dessas, tem os sonhos mais estranhos; você vai embora, você some de si mesmo!
Depois de acordado, não dormi mais. Fiquei olhando uma vidraça que deixava entrar um pouco da escuridão da madrugada até o clarear do dia, lembrando do tempo em que eu realmente corria por aqueles campos da várzea, isto é, no tempo em que os havia.
O grande futebol varzeano acontecia aos domingos de manhã por toda nossa cidade. Tinha horário marcado, os 2ºs quadros começando após o término das missas das 9h, quer dizer, por volta de 10h15, 10h30, e o "primeirão" lá pelo meio-dia, meio-dia e quinze, o mais tardar. Em dias festivos, dias de festival, os jogos começavam às 8h, mais ou menos, em ponto, mas eram domingos de exceção…
Claro que tinha futebol aos sábados à tarde, mas não era a mesma coisa. O futebol aos sábados era mais para uma satisfação pessoal, não tinha o mesmo “tesão” do futebol do domingo que movimentava o bairro e tinha jogadores conhecidos por todos, verdadeiros craques de "chancas amaciadas”. Alguns times mais poderosos tinham até bolas de válvula, iguais às dos profissionais; nada dos capotões com seus cadarços de couro e seus amarrilhos que demandavam um especialista em laçadas e em dobrar bicos de câmaras de ar (mas, por melhor que fossem os tais especialistas, depois da 4ª ou 5ª cachuça, as bolas de capotão pareciam com tudo, menos com bolas).
Em volta dos campos e, principalmente, atrás das traves sem redes, ficavam os tipos folclóricos do pedaço: os três velhos de paletó, chapéu desabado e guarda-chuva, por exemplo, sempre com a mesma conversa totalmente maluca:
– Eu acho que vai chover…
– Acho que não. Nunca se sabe…
– Não sei, não… Mas quando ficam aquelas nuvens daquele jeito lá pros lados da represa, vem chuva aí… Ainda bem que eu trouxe o guarda-chuva!
– Bem, se chover, chuva eu não tomo, porque eu trouxe o meu morcego…
– Eu também.
– Ih, saiu um "gôr" e nós não vimos!
– "Gor" nosso ou do adversário?
Ah. Os infartos, os sonhos, e o 'futibór' da nossa 'varja'! Fala a verdade, não dá saudade? Quantas vezes a gente se imagina, com a nossa idade (estou com 70), batendo uma bolinha?
Posso não fazer as coisas que eu fazia, mas “eu acho” que dá pra correr uns 20 minutos. Vou perguntar pro meu geriatra se eu posso…
Meu Deus, quanta pretensão!
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