Os anos finais dos 50 para os 60 foram a melhor fase da vida, a verdadeira infância no bairro da Penha.
Tudo se passava entre a divisa com Guarulhos (pontilhão) e a estação do trem da Penha – Est. Gualberto. Corríamos sobre os trilhos da Central do Brasil, pegávamos dormentes e parafusos das linhas de trem e íamos vender no ferro velho, e o máximo que acontecia era o chefe da estação reclamar para os meus pais – e daí, levar um puxão de orelha.
Havia a turminha da Caquito, que quebrava o pau com a nossa turma, a da Gabriela Mistral. Quem tinha bicicleta (eu não tinha) andava para lá e para cá sem capacetes, cotoveleiras, caneleiras e nada acontecia.
Bebíamos água de filtro de barro, da torneira, do Rio Tiete, de uma mangueira, e nada nos acontecia de ruim na saúde.
Construíamos os carrinhos de rolimã para descer as ladeiras; era só alegria. Íamos brincar na rua com uma única condição: voltar para casa ao anoitecer. Não havia celulares e nossos pais não sabiam onde estávamos. Era incrível.
Tínhamos aula só de manhã e íamos almoçar em casa. Quando pegávamos piolho usávamos Neocid em pó – e sobrevivemos. Comíamos doce, pão com manteiga, drops Dulcora e não se falava em obesidade. Dividíamos com os nossos amigos uma Tubaína comprada no armazém da esquina e ninguém morreu disso. Não existia ração e nenhum cachorro morreu por causa disso; todos eram Rin Tin Tin.
Jogávamos bola na rua com a trave sinalizada por duas pedras. A pureza do som nos bailinhos era as radiolas Telefunken com agulhas de diamantes sobre o disco de vinil.
Tosse se curava com o xarope São João. Os carros não tinham cintos de segurança, apoio para cabeça, air-bag… Pulava-se nos bancos de trás, igual uns espuletas, e tudo bem.
Tínhamos liberdade, fracassos, sucessos e deveres e aprendíamos a lidar com cada um deles. Pergunto: como é que a gente conseguiu sobreviver?
(Obs.: Eu guardo um livro dessa época que se chama Saudade, de Tales de Andrade. Vale a pena ler, vai achar nos sebos.)
e-mail do autor: [email protected]