Nada de "pipa": quando menino, soltava e não "empinava", peixinho ou quadrado, maranhão, barraca e até capucheta. Explico aos paulistinhas jovens: peixinho ou quadrado era cortado em forma de losango e duas varetas transversais de bambu maranhão era em forma poligonal com duas varetas horizontais em paralelo e uma vertical; barraca tinha de vários formatos, a mais comum com papel e varetas em formas de estrela e, por último, a capucheta que chegou à Vila Maria trazida pelos italianinhos do Brás (uma folha de jornal dobrada e unida em dois pontos por um curto barbante). A linha sempre besuntada com "cortante". Hoje garotos e marmanjos empinam pipa com cerol. Nada contra a pipa e tudo contra o cerol, que substitui com maldade nosso inocente cortante. Imagino o gaúcho ouvindo sua pandorga sendo chamada de pipa. Pensando bem, pode ser que já se acostumou de tanto ver sua bergamota recebendo o tratamento de tangerina…
Não, não sou saudosista e sei que a globalização atingiu em cheio, via televisão (leia-se novelas), todas as regiões do nosso país. Também sei que a língua é dinâmica e isso a torna tão bela e rica. Não gosto quando nossa identidade linguística, com sotaques e tudo o mais começa a se misturar. Voltando às novelas: nada mais vulgar do que um mau ator paulista interpretando personagem carioca, ou um carioca interpretando nordestino, ou nordestino atuando como carioca. A língua vira um tal de tudo junto e misturado e ninguém sabe mais quem é quem.
Muitas novas expressões fazem parte, ou farão, da nossa língua falada e, mais cedo ou mais tarde, invadirão a língua escrita. A que fica, a que faz história, a que serve de exemplo, a que é estudada e ensinada é a língua escrita. A culta é a escrita, com todas suas normas, a falada é a popular, a leiga. Qual é a mais bela? Não sei, as duas formas têm seus atrativos. Quem gosta do idioma se maravilha com Machado de Assis e, ao mesmo tempo, se delicia com a "Orora Analfabeta" (Gordurinha e Nascimento Gomes), a bela criatura filha do Arineu, que escreve saudade com “c”. Tão admiráveis são Olavo Bilac e Adoniran Barbosa no trato da língua. De minha parte, desculpem me meter, só tomo cuidado com a escrita. Erro muito, não sou erudito, mas tomo algumas precauções. Longe, muito longe estou de Bilac, Adoniran, Machado, Gordurinha e tantos outros, mas faço como eles: escrevo pensando que o que realmente fica é a escrita. Aí sim, tudo junto misturado sabendo quem é quem…
Bilac chamou nossa língua de inculta e bela, esplendor e sepultura, desconhecida e obscura; tudo isso em um só soneto onde ainda escreve: "Amo-te, ó rude e doloroso idioma".
Nossa língua nasceu no Lácio, a região onde hoje fica a Itália, das palavras pronunciadas por lavradores incultos que, antes, originaram o idioma falado em Roma. A nossa flor foi a última do Lácio. Inculta, por se originar de camponeses. Bela por ser esplendor e sepultura, desconhecida e obscura…
Recebeu, o idioma português, influências germânica e árabe, por conta de invasões. Os árabes ficaram na região por quinhentos anos e deixaram palavras como alface, alfarrábios, azeite e muitas outras.
Ao chegarem ao Brasil, poucos portugueses aqui se fixaram. Pouquíssimos, se comparados a 1.200 povos indígenas que falavam mais de mil idiomas diferentes! A partir de 1530 chegam expedições povoadoras (a primeira colônia fundada foi São Vicente, em 1532) e, com elas, a necessidade de se comunicar com palavras e não só com gestos. Surge uma nova língua, baseada no Tupi e com forte influência da última flor do Lácio. Era a "Língua Geral Paulista", que acrescentou palavras como: anhembi (rio das anhumas), uberaba (rio brilhante), tucuruvi (gafanhoto verde) e inúmeras outras. Os Jesuítas usaram esta língua para catequizar (quase saiu entre aspas!) e os bandeirantes para explorar (em todos os sentidos). A língua geral paulista foi falada livremente por dois séculos, até que em 1758 o Marquês de Pombal tentou dar um fim nesse idioma, que o Padre Anchieta chamou de língua brasileira, acrescido da contribuição africana vinda com a escravatura (bagunça, cachimbo, angu, etc…).
Instituiu, o nobre português, a língua lusitana como único idioma falado em nosso território. Com a caneta na mão, assinou uma Lei do Diretório dos Índios. Quis assassinar uma língua que juntava o português (latim, galego e árabe), o índio (tupi e outras nações) e o negro (africano, com todas suas nações). O Marquês faria outra “pombalada” no episódio da Inconfidência Mineira… A verdade é que não se acaba com uma língua dessa maneira, com canetada. A língua geral paulista foi falada por populações da periferia de São Paulo até o início do século XIX. A região central falava português, como mandou o Pombal. Marquês de Pombal foi o primeiro globalizador do Brasil…
Com a chegada de D. João VI e sua corte, os moradores do Rio de Janeiro conheceram a fala dos nobres portugueses e, na tentativa de imitá-los, assimilaram seus "erres" e "chiados". O paulistano sofreu influência dos imigrantes, sobretudo dos italianos. Em 1909, conhecendo a fala dos italianos do Bom Retiro (o berço não era, ainda, a Mooca), o escritor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado cria o "Juó Bananére", imitando o modo de falar dos italianos de São Paulo e oferecendo uma quase língua paulistana. O trecho de uma falsa entrevista com Washington Luiz, a quem chamava de "Mussoline", publicada em 1924 por "O Estado":
"-Bondie sô Mussolino!
-Bondie Bananére! O che manda?
-Io sô dottore!? Io nom mando nada! Che manda aqui nista gapitania é u signore!
-É modéstia sô Bananére!
-Intó io sô besta?! Intó io non to veno?! U signore quizi sê segretario da polizia, e fui! Quisi sê guvernatore da cittá, e fui!Quizi sê governatore du Stá di San Baolo, i fui! Quizi sê Storiadori,i fui!Aóra u signore stá quireno sê prisidentimo da a Republiga, i a di sê! I si o signore quizé sê Papa tambê a di sê, perchê San Pietro non era to importanti come u signore fui!! Chi ti vê oggi i che ti viu! Chigné chi á di dize chyi vucê giá fui barítono abarato in Batatalo, vucê chi oggi ganta di gallo nu Brasile intero, i ninguê ganta maise artu chi chi vucê?!"
Muitos paulistanos da Mooca e do Bixiga falaram assim por muitos anos (alguns ainda falam!).
Não me sinto ofendido por chamarem meu peixinho de pipa, mas por conta da dúvida, listo uma série de expressões surgidas em Sampa e que são faladas por todo o Brasil: bagulho (qualquer coisa); bicuda (chute com força); busão (ônibus); bater um fio (telefonar); xepa (resto); bem bolado (acerto); cabuloso (muito bom); dar um rolê (passear); dar área (sair); da hora (bonito, ótimo); é fria (perigoso); encher linguiça (falar muito); mocreia (mulher feia); noia (drogado); queimar o filme (estragar algo); e muitas, muitas mais…
Pronto! “Tô” vingado!
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