Ele pôs uma nota de cem cruzeiros sobre a mesa da sala de jantar. Na época o Brasilino morava no Alto da Lapa, na Rua Pio XI, próximo da Diógens Ribeiro de Lima, antiga estrada da Boiada que naquele tempoainda margeava a várzea do Rio Pinheiros.
O Brasilino veio ao mundo no começo do século passado, em 1900; era paulistano da gema, nascido e criado na capital de São Paulo na Rua das Flores, 27, próximo à Praça Clóvis Beviláqua, atrás do quartel do corpo de bombeiros, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.
– Papai, esse dinheiro é para ajudar nas despesas da casa! – disse o filho, olhando para o pai encolhido em uma cadeira de balanço no canto da sala.
O homem ficou sem graça, vermelho de vergonha com aquela condição resolutiva depois que o filho colocou aquela importância em dinheiro sobre a mesa para ajudar nas despesas do mês. Ele havia trabalhado durante 40 anos em uma mesma e única empresa. Vinha do tempo que ainda não havia a lei do Elói Chaves. O trabalho era quase que escravo porque as pessoas tinham que trabalhar a vida toda, pois não havia ainda as regras da Previdência Social no Brasil.
Depois do decreto número 4.682 de janeiro de 1923, que determinou a criação da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários, foi considerado o ponto de partida para a implantação da Previdência Social no Brasil em 30 de abril do mesmo ano. Foi criado também o Conselho Nacional do Trabalho para lidar com as regras relativas à Previdência Social. Objeções à parte, nos anos que se seguiram, outras Caixas de Aposentadorias foram criadas em favor das demais categorias tais como a dos portuários, telégrafo, servidores públicos, etc.
No caso aqui presente, era ele um trabalhador do sistema ferroviário iniciando sua trajetória profissional na Estação da Luz como telegrafista de terceira categoria, ou seja, aprendiz de telégrafo, nos idos de 1916, na antiga São Paulo Railway Company (SPR Inglesa). Naquela época, após o ano de 1923 as Caixas de Aposentadoria só arrecadavam porque não tinham despesas ainda com o custeio dos benefícios sociais e de proteção dos empregados trabalhadores.
A carta magna de 1934 seria a primeira a estabelecer o custeio social e ainda triplicaria a ação da Previdência Social, com a participação do Estado, dos empregadores e dos empregados. A nova lei constituía no amparo da produção e estabelecia as condições de trabalho nas cidades e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador coisa que, anteriormente, não existia. Quando se aposentou, em 1956, depois de quarenta anos de trabalho contínuo, passou a receber Cr$5.000,00 (cinco mil cruzeiros) por mês, uma quantia de bom tamanho para a sobrevivência na época.
Contava ainda, com o beneficio da complementação por tempo de serviço, pago pela Rede Ferroviária Federal (RFF) no montante de Cr$ 500,00 cruzeiros por mês. A vida tinha lhe dado a devida recompensa pelos longos e desgastantes anos de trabalho quando não havia ainda nenhuma garantia de sobrevivência, caso viesse adoecer. O tempo passou. Os anos seguintes foram de achatamento salarial devido às políticas execráveis e injustas de governos passados.
O salário foi se corroendo à medida que o tempo passava. Agora estava na dependência de um único salário mínimo para a sobrevivência. Parou no canto da sala e ficou olhando para aquela nota de cem reais que o filho havia depositado sobre a mesa da sala. Aquilo era injusto, humilhante, para quem havia trabalhado de sol a sol durante quarenta anos de sua vida. Acabara de ficar refém cativo, na dependência da ajuda dos filhos para poder se manter com alguma dignidade social.
A esmola do governo dava apenas para comprar alguns alimentos, e nada mais. Os remédios que na sua idade tinha que forçosamente comprar estavam cada vez mais caros, longe do alcance de sua pobre bolsa. Como costumava afirmar um ilustre economista de São Paulo: ao entrar em uma farmácia latindo o imposto era de 15%; se entrasse falando era de 30%. Uma comparação para situar uma realidade, um acontecimento apenas, porém o fato era verdadeiro.
Os deputados com roupas de mandriões, com ternos de cambraia inglesa, com gravatas de seda italiana, ganhavam salários elevados e eles ainda reclamavam que não dava para viver. Ficou imaginando como esses senhores, criadores das leis, viveriam com um único e mísero salário mínimo. Mas ele tinha orgulho, não iria aceitar a ajuda dos filhos. Afinal, de fome ele não morreria. Tinha como consolo a ampla assistência médica do SUS, que efetivamente não funcionava, porém era gratuita.
Escárnios à parte, aquela zombaria trazia-lhe um sentimento de intranquilidade. O olhar melancólico na população pusilânime, esfarrapada como ele, que também devia estar na mesma condição de penúria, trazia-lhe um pouco de alento, porque sabia por dedução que não estava sozinho naquela caminhada insegura. Mas com firmeza de pensamento, resolveu, iria morrer com dignidade, não devendo o caixão patrocinado pelo serviço funerário as expensas da previdência social.
Morreu feliz pensando nas sábias palavras de sua santa mãezinha, que neste mundo havia três posições de prepotentes: O Papa, o Governo e o que não tem nada. Ele se enquadrou na terceira posição.
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