Esta história, aparentemente absurda, passou-se em uma época em que a honestidade valia muita coisa. Era o ano de 1968, e eu morava com minha mãe e meus irmãos menores no alto de Santana.
Estudava no Cedom – grande instituto de educação estadual -, e tinha os famosos passes escolares de ônibus, ainda em papel. Minha mãe era modista (ai de quem falasse costureira) e tinha um vestido para entregar no Parque Oriental no Jabaquara. Como ela estava atrasada com outras encomendas, eu fui escalado para entregar o vestido da Dona Filustreca. Era só entregar, pois já estava pago.
Adorei a idéia, já que rodar por São Paulo, para mim, era um delírio. E lá fui eu, com minha caderneta do colégio – dentro dela os dois passes, um pra ir outro pra voltar. Desci até Santana e, na Avenida Cruzeiro do Sul peguei o ônibus 923 – Santana – Americanópolis.
Claro que sentei na janelinha, para apreciar todo o longo trajeto. Todo o caminho estava tomado pela obras da linha azul do metrô, portanto essa viagem levava horas, mesmo porque o danado do ônibus ainda tinha que passar pelo congestionadíssimo centro da cidade. Às vezes, levava mais de uma hora, só para passar da Estação da Luz até a Praça da Liberdade.
E lá fui eu, como já falei, com minha caderneta escolar. Desci perto de uma antiga garagem da CMTC, virei aqui, virei ali e cheguei na casa da Filustreca. Entreguei o vestido, não tomei nem água e voltei pro ponto de ônibus.
Desde sempre eu conferia para ver se tinha o dinheiro ou passe, para depois entrar no ônibus, pois seria uma vergonha não ter como pagar uma simples condução.
Abri a caderneta para pegar o passe e não achei o danado. Abri novamente, repassei os "zóio", fucei e nada do passe…
Putz e agora?
Não tinha outro jeito… Teria que ir do Jabaquara até Santana… a pé…
Sai do Jabaquara, mais ou menos umas quatro horas da tarde e fui andando…
Avenida Jabaquara, George Coibisier, Domingos de Morais (credo que fome!), Liberdade, Centro, Avenida Tiradentes… Tudo quase plano ou descida… Voluntários da pátria… E a danada da Ladeirona Madressanta. Fui praticamente me arrastando de cansaço, também pudera, oito horas de caminhada.
Cheguei em casa, minha estabanada mãe italiana quase arrancando os cabelos, e com o fio de ferro não mão… Depois de algumas lambadas, ela me deixou explicar o que aconteceu.
Dormi com as pernas ardendo em fogo: da pernada e do fio de ferro.
No dia seguinte, ao chegar ao colégio, apresentei a caderneta para a inspetora anotar o "compareceu" e adivinhem… O “miseraver” do passe de papel estava colado na página do dia e eu não vi…