Diáspora sírio-libanesa – A saga da família Achcar

Diáspora sírio-libanesa, a saga da família Achcar. A vastidão do Império Turco Otomano somou 5 milhões de quilômetros quadrados. Comparado com o Brasil isso representa quase 60% de todo o nosso território, e sabemos sua magnitude. Este império durou mais de seis séculos desde 1299 até 1922.

Fundado por Ertughrul e seu filho Osman, líderes tribais dos turcos Oguzes do oeste da Anatólia, confrontaram o maior poderio econômico deste tempo, os países europeus. O nome Otomano vem de Otman, que é a grafia de Osman em árabe. Seus limites vinham do estreito de Gibraltar até o Golfo Pérsico a leste; da Áustria e Eslovênia até o Sudão e Iêmen ao sul. Tinha como capital Constantinopla. Apoiando o lado que resultou perdedor na primeira grande guerra, iniciou o seu declínio. Em 1908 com a Revolução dos Jovens Turcos, que eram islâmicos, começou a perseguição aos cristãos que antes não eram incomodados, resultando importante aumento no fluxo imigratório. Em função da existência deste grande império, as fronteiras dos países não tinham tanto rigor e assim as imigrações tinham origem, na Síria, no Líbano ou áreas vizinhas.

Neste cenário, em 1910 no porto de Santos desembarcaram Nicolau Jorge Achcar e sua esposa Hanna, com os filhos Jorge Nicolau, Nassim, Felipe, Abdallah, Abrãao e Farid. À exceção de Nassim que se radicou no Rio de Janeiro e Farid que veio para Uberlândia, os demais ficaram com os pais em São Paulo, indo morar na Rua dos Lavapés. A cidade natal no Líbano é Baino Akkar e fica ao norte quase na fronteira com a Síria, tendo a oeste o Mar Mediterrâneo. A palavra Akkar, de origem síria significa fazendas e fazendeiros. Nesta mesma viagem veio Mariana Achcar e seus irmãos com seus pais, o sacerdote cristão ortodoxo, José Achcar e sua esposa Hanna. Mariana era prima de Jorge Nicolau e eles se casaram logo que chegaram ao Brasil. Os pais de Mariana se radicaram em Guaxupé, MG. Todos os demais da família em São Paulo se dedicaram ao comércio envolvendo tecidos e roupas prontas.

Tudo caminhava muito bem até que houve a Revolução de 1930. Aturdidos com a gravidade da situação a família se transferiu para Guaxupé, onde residiram por uma década. Depois disso, voltaram à capital paulista e logo depois Nicolau Jorge e Hanna retornaram ao Líbano. Esta também era a intenção do filho Jorge Nicolau e Mariana, mas isso não foi concretizado, pois ele veio a falecer no Brasil (1881-1955). Deixaram extensa prole, Georgina (1913), Latife-Júlio (1915), Naby (1917), Angelina (1918), Salim (1920), Mário (1922), Alberto (1924), Nicolau (1927) e Jacob (1928). Todos já falecidos. O último foi Alberto aos 80 anos em 2006.

Na volta a São Paulo foram residir em um sobrado na Rua Vergueiro, próximo à Catedral Ortodoxa (o sobrado ainda existe). O meu foco passa a ser Salim Jorge Achcar que se tornou meu tio por núpcias com minha tia Maria de Lourdes Bernardi (irmã de meu pai). Salim trabalhou na Camisaria Diplomata situada à Rua Senador Feijó, próxima à Catedral da Sé. A loja pertencia à família de seu primo Nege (filho de Felipe). Figuras carimbadas da sociedade eram clientes, como Laudo Natel e Dulcídio Wandeley Boschilla. Um primo destes dois citados, Camillo Achcar (filho de Abdallah), foi advogado, vereador e deputado estadual por São Paulo; também tomou posse como juiz do Tribunal de Contas do Estado em 09 fevereiro de1968 e se retirou em 19 setembro 1973. Possui rua com seu nome em Carmo do Rio Claro, MG. Pela carreira política alterou seu sobrenome para Ashcár, nas campanhas eleitorais.

Em 1958, meu tio Salim e esposa com os três filhos, Carlos Edgard, Luiz Roberto e Eduardo, se mudaram para São José do Rio Preto, onde foi adquirida uma loja de roupas femininas batizada de "Garota Chique Modas" que ficava na rua principal, a Bernardino de Campos ao lado do Cine Rio Preto, da empresa Curti de Cinemas Ltda. Esta loja funcionou até 1978. Voltaram para a capital paulista e moraram na Rua Paula Ney na Aclimação, por alguns anos. Salim trabalhou em uma loja na Penha à Rua Antônio de Barros. Com a aposentadoria, voltou a São José do Rio Preto com a esposa onde faleceu. Ficaram os três filhos e seis netos.

Dedico esta crônica à lembrança da pessoa formidável que foi Salim Jorge Achcar, que brindava a vida junto da família à mesa, com fartura de alimentos e muito calor humano. Também aos seus filhos e netos (meus primos), Carlos, Beto e Eduardo. Também a alguém que muito me ajudou no incentivo e nas informações, o Prof. Dr. Jorge Alberto Achcar, matemático-estatístico e professor emérito da USP (filho de Alberto e sobrinho de Salim) e Marisa Achcar (filha de Jacob). “Salute, tio Sála! Saluti a tutti Achcar e Bernardi!”

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