Desrespeitando o Brazão São Paulo

Visitando frequentemente este site, São Paulo Minha Cidade, sempre me vêm pensamentos que trazem vestígios do passado, me remetem à infância.

Lembrei-me de quando nós, moleques, cometemos malcriadês contra Brazão São Paulo. Isso não devia ter ocorrido. Falta de urbanidade e civilidade.

Tínhamos um "timinho" de futebol, jogávamos todos os domingos. Os jogos eram agendados, na época, na porta do antigo Jornal do Brás, todas as quartas-feiras, na Rua Brigadeiro Machado. Procurávamos os adversários por meio dos gritos ouvidos: “Domingo de manhã, meu campo, primeiro e segundos quadros, duas taças”. Trocávamos os convites, assinados e confeccionados tipograficamente.

Nosso timinho era pobre, composto na maioria por filhos de operários do Brás. O patrimônio do clube era pequeno. Um ex-saco de farinha guardava o fardamento (vinte e duas camisas), do primeiro e segundo quadro. Uma caixa de medicamentos (todos os remédios para pequenas contusões), exceto o "éter sulfúrico", escondido. Evitávamos que o "Ribeirinha" (um dos nossos cinco torcedores assíduos) cheirasse todo o vidro. Havia uma bola de válvula (substituira a de capotão), uma bomba pra enchê-la, e o "bingulim", um pequeno dispositivo para auxiliar o enchimento da bola (também conhecido por bico). Quase todos levavam suas próprias "chancas", devidamente protegidas pelo sebo cedido pelo açougueiro do bairro.

Naquele domingo fomos à procura do campo adversário, de ônibus. O caminhãozinho do Senhor Antonio faltara, adoecera o velho senhor. Não haveria a costumeira batucada na carroceria. O ônibus que nos levou era da Empresa de Ônibus Alto da Mooca, o 28-Vila Bertioga. Nosso grupo de meninos era infanto-juvenil, a idade dos pequenos atletas não passava dos 14 (catorze) anos. Os clubes eram divididos por categorias: mirim, infantil, juvenil, esporte, e extra.

Somente nosso técnico, um nordestino sério e disciplinador, era adulto na época: Zé Maria. Esse treinador recolhia, de qualquer garoto, se encontrasse, o Catecismo de Carlos Zéfiro. Reprimia quem se masturbasse antes dos jogos. Dizia: “os jogadores que estimulassem os órgãos genitais antes dos jogos perderiam o fôlego e a vaga. Não seriam escalados.”. Gritava em alto e bom som: “Atleta que se preze não pode bater p…".

Naquele domingo nosso time estava completo, o primeiro quadro com seus principais jogadores: Migué, o arqueiro que pegava tudo, apesar da baixa estatura; Renê fazia "gols" de bicicleta, acompanhado por um salto duplo carpado; Tala, um beque central de média altura, com impulsão de gente grande; Totô (da Rua Caetano Pinto), centroavante de corpo esguio, estilo Falcão (do Internacional); Zezo, o volante que se impunha (mais tarde, em 1974, veio a ser Zanetti do Saad Esporte Clube); João Sussio (um meia rompedor), mas sempre com as chuteiras emprestadas. De alf esquerdo, Roberto, atarracado e veloz. Deixava cavidades nos campo de terra, nunca mais nascia grama no local que ele passasse. Durval ponta esquerda, que recuava para ajudar atrás, porém, a defesa adversária ficava estrábica com seus cruzamentos enviesados.

Descemos do ônibus na Rua Siqueira Bueno, esquina da Rua Itamaracá. Aos senhores que bebiam nos balcões da Padaria Santa Branca (ainda atual), indagamos do caminho a Rua Barão de Penedo. A gozação foi geral, tiravam sarro. Simulavam dar-nos dinheiro para retornar. Pegar o ônibus de volta. Onde pensam que vão, garotos mal mamados? Riam à beça. Definitivamente eram "mal educados" esses senhores.

Encontramos o campinho e iniciamos a jogar. Tempos acertados "40’ por 40".

No segundo quadro já causamos uma pequena surpresa. Ganhamos de dois a zero.

Antes de iniciar o jogo do time principal, o talento adversário foi logo reconhecido. Saltitavam iguais aos atletas profissionais. Alguns com tornozeleiras e "saqueiras" para proteger os "bagos". Aquele time não era infantil, conforme afirmara o "arranjador de jogo", naquela quarta-feira. Havia um "esquadrão" de adultos em campo… Alguns profissionais dos aspirantes dos clubes da capital de São Paulo. "Edmo" chegara a jogar na equipe principal do Nacional A. C., Luis era o mais elogiável de todos, tal a sutileza que tocava na bola. Outros menos famosos, não recordo.

Inicia-se o jogo. Nós, só "tocando bola" no meio do campo; eles só trocando as bolas, as nossas, e as do meio. Era vigoroso esse esquadrão.

Mesmo na inexistência do narrador Osmar Santos, fizemos "1×0", pimba na gorduchinha! Veio o segundo tempo. O adversário mais desequilibrado. Agarravam os puídos calções de nossos jogadores, e ameaçavam: “Vocês não vão sair vivos daqui!”.

Em nós não havia disposição para brigar, a diferença de tamanhos eram enormes, mesmo porque, nesse "quadrilátero", cercado por folha-de-flandres, não havia saída, a corrida para a fuga seria impossível. Resolvemos continuar gastando nossas energias jogando futebol. Gool!… fizemos 2×0!

A raiva aumentou do lado adversário. Agora pretendiam empatar de qualquer jeito. A muito custo e força física. Fizeram um gol. O jogo continuava e não encerrava. Se houvesse a narração do saudoso Fiori Gigliotti ele diria: “O tempo passa…!”.

Passados 55’ (minutos) e o jogo não termina! Havia passado 15’ (quinze minutos) do combinado, e a fúria do esquadrão aumentava. Nisso, ofendido pelo roubo e malogro que se desenrolava, um guarda civil, todo de azul e revólver na cinta, adentra em campo e avisa o juiz (nomeado pelo adversário) que iria encerrar o jogo. O juiz pede clemência e mais 5’ (cinco minutos), que lhe são concedidos, sem serem proveitosos. O jogo termina 2×1, pra nós!

Edmo vem nos cumprimentar todo choroso: “Pô! Vocês quebraram 101 partidas invictas quando eu jogava no Vila Paris F. C. e agora vêm aqui e quebrar nossas 86 partidas… É muito azar”.

Trocamos de roupa e retornamos, rapidamente, para o ponto de ônibus de retorno, sem antes deixar de receber diversos abraços daqueles senhores adultos, agora educados, frequentadores assíduos da Padaria Santa Branca, e tomamos uma dúzia de guaraná Caçulinha, paga por eles.

Cometeram um atentado cívico, aqueles pivetes do Brás antigo, ofenderam o Brazão São Paulo F. C., o grande esquadrão da Água Rasa, quebraram sua invencibilidade…

e-mail do autor: [email protected]