Década de 30 e 40 na Bela Cintra e proximidades da Paulista

Em meados dos anos 30, existiam duas linhas de ônibus na cidade de São Paulo: o "amarelinho" e o "prateado". Era chique ficar na fila de pessoas importantes e bem arrumadas, que lá ficavam aguardando a única condução para se chegar à Praça do Patriarca – na parada do ônibus amarelo (trajeto Jardins) ou do prateado (trajeto Higienópolis). As mocinhas gostavam de ficar vendo os meninos na fila – era um dos atrativos da cidade, juntamente com o bonde "camarão". Carros, muito poucos e táxis não existiam. Também era hábito tomar chá no Mappin (Mappin Store), na Praça Ramos de Azevedo, uma loja muito fina; como a Galeria Paulista (antes era Casa Alemã), na Rua Direita.

Nasci em 1926 na capital paulista, neta de imigrantes franceses e italianos, e convivi com este momento da cidade de São Paulo. Meu pai foi o primeiro dentista de Pinheiros e, me lembro aos 18 anos, com uma carta de motorista recém-tirada, descendo a Rebouças para levá-lo ao seu consultório na Rua Teodoro Sampaio, bem no Largo – de ponta a ponta; era o único carro da avenida, ainda não asfaltada. Passando pelas Clínicas, ele sempre dizia:
– "Quem vai querer vir até aqui com esta terra toda?".

Chegando em casa, na Bela Cintra quase esquina com a Alameda Santos, próximo da Avenida Paulista, trocava de sapato – tinha o hábito de mantê-lo bem limpo, engraxado por ele, com sua caixinha de madeira com pomadas, escovas e flanelas.

Um pouco mais abaixo dessa região, ficava uma rua "pobre" como diziam os moradores, era a Oscar Freire! Perto da Paulista, com dez anos de idade, sozinha, ficava andando de bicicleta ou de patinete (presente de Natal dos meus pais), onde não passava quase carro – aliás, passavam mais os de enterro que iam para os cemitérios próximos, especialmente da Consolação. O nome do carro funerário que sempre circulava por lá era “Camburão do Rodovalho”.

Costumava ir à missa do São Luiz na Capela do Colégio. Após os ensaios da primeira comunhão eu ficava quietinha no muro da igreja que dava para a Avenida Paulista esperando minha mãe, que deixava o trabalho de professora em uma escola estadual na região central, e me pegava às 18h para ir para casa. Não tinha perigo nenhum.

De vez em quando eu ia brincar com uma vizinha turca na casa da sua avó, exatamente onde é o Hotel Renaissence – um casarão enorme. E também passear nos jardins da casa do avô de outra amiga, chamada Helena, exatamente onde hoje é o Conjunto Nacional – era a casa do Horácio Sabino, dono de terrenos do Jardim América, cuja mulher chamava-se América. Brincávamos no porão, nos balanços, nos jardins daquela grande área, normal para nós.

Meu avô materno morava na Celso Garcia e quando ia lá, visitava uma tia, que também morava por aqueles lados do Brás, e ia chupar uva na Cháraca do Marengo. Por lá só de charrete – era um dos lugares importantes de São Paulo, onde moravam os descendentes de italianos.

Um pouco maior, adorava jantar e ir ao cinema – o Cine Odeon, na Consolação. Jovem, cursei o Mackenzie, namorei, casei com um colega e, em meados dos anos 40, fui morar perto da Pamplona, convivendo nova calmaria, em uma rua estreita perto do Colégio Assunção. Era a Rua Tapiratiba, onde fiz novas amizades, em uma casa que hoje deu lugar a um condomínio de prédios.
Estranhei essa mudança, pois, mesmo com poucos carros e pessoas na década dos 30, a Bela Cintra tinha uma vivacidade inesquecível, com muitas coisas boas e belas para todos seus moradores.

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