– Toma Doril que passa!
– Benegripe! Benegripe!
Subconsciente dominado pelo bombardeamento do marketing é o que nos faz "receitar" o remédio para a charmosa vaquinha resfriada, a Cowrisa. E a vaca doentinha desperta a solidariedade e curiosidade do paulistano na Paulista. Muitos param "penalizados". É também, junto com as outras 149 espalhadas pela cidade, um símbolo de modernidade, de arte livre, de graça e humor.
– Olha que coisa mais linda. Olha para cima e veja as florzinhas coloridas que rodeiam os postes. Você já as tinha visto?
Elas são uma das marcas da Paulista que, se agora estão coloridas, em breve serão bicos de papagaio vermelhos, saudando o Natal que se aproxima. Grande idéia de alguém de sensibilidade e gosto estético.
Entre a aquarela sobre papel de Jules Martin – sim, o mesmo que foi o responsável pelo primeiro Viaduto do Chá – retratando o dia da inauguração da Avenida Paulista com uma mesa de doces rodeada de convidados dos empreendedores, a nossa vaquinha e as florzinhas, fica um tempo de mais de um século. Tempo em que a mais paulista das avenidas foi se modificando para chegar ao que é hoje, linda e "borbulhante".
Correndo paralela às grandes transformações da cidade como um todo, a Paulista mostra em si mesma essas mudanças.
Símbolo da cidade, a Paulista nasceu de uma trilha aberta na mata de Caaguaçu e já nasceu grande. Ocupando uma posição alta na topografia da região, como divisor de águas que separa os vales dos rios Pinheiros e Tietê, é um espigão, um dos pontos mais altos da cidade. Não é por acaso que nela se concentram antenas e torres de rádio transmissão e que foi nela que aconteceu a primeira transmissão sem fio feita pelo padre Landell de Moura nos primeiros anos nos século XX, antes mesmo de Marconi mostrar para o mundo sua descoberta.
Durante seus primeiros anos foi pacata, tranqüila, familiar e rica. Teve seus desastres: um monumento a Olavo Bilac, sem nenhuma unidade plástica e sem poesia, não sobreviveu muito tempo: foi desmembrado, retalhado.
Uma de suas partes, o Idílio ou O Beijo Eterno, depois de escandalizar senhoras de um bairro onde foi colocada, foi parar em frente à Faculdade de Direito, onde os corpos nus unidos em um beijo, e os dizeres sensuais não mais escandalizam os passantes.
Teve uma modesta escola de jesuítas que vinha de Itu para se instalar na capital. Suas ruas eram largas, poucos carros, carruagens e tílburis, gente passeando a pé, densidade demográfica pequena. Residências suntuosas, ao estilo do dono, fosse ele italiano, árabe, português ou o quatrocentão fazendeiro de café. Abrigavam a burguesia comercial e industrial bem sucedida da época. No máximo de dois andares, às vezes um sótão, uma torrinha. Calçadas arborizadas e livres para os passeios das famílias, das senhorinhas, para os flirts da época, das babás com as crianças.
Dá para imaginar alguém dizendo:
– Vamos à Avenida Carlos de Campos para um passeio?
Parece impossível, mas isso poderia ter acontecido entre 1927 e 1930, quando a Avenida Paulista chamou-se Avenida Carlos de Campos.
Ontem, Parque Trianon, uma área de 48 mil m² de remanescente da Mata Atlântica com sapucaias, canelas, jacarandás, jequitibás, seringueiras, pitangueiras e um viveiro de aves – são oitenta espécies entre rolinhas, periquitos, pica-paus, bem-te-vis e sabiás. Até preguiças perambulavam pelas árvores. Um Clube Trianon, com restaurante, salão de bailes e um Belvedere, um projeto de Ramos de Azevedo que funcionava como local de festas, eventos culturais e ponto de reunião da elite. Lugar de comemorar carnavais, assistir corridas de automóveis, foi demolido em 1950.
Teve e continua a ter o Instituto Pasteur e o Grupo Escolar Rodrigues Alves, ícones remanescentes.
Vida mansa, gostosa, e tranqüila, de uma época quando os cavalos, carruagens, bondes de burros e tílburis transportavam os paulistanos, e a vida corria apenas na superfície e já era muito o espaço disponível. Pouca atividade cultural, restrita apenas aos salões que certamente não eram na Paulista. Iluminação precária, luz de gás, vencendo a custo a garoa que ainda existia.
Uma casa, com o poético nome de Casa das Rosas, regalo de um pai amoroso e arquiteto famoso – Ramos de Azevedo – para a filha que estava se casando. Majestosa, com 35 cômodos, retrata uma época.
O tempo vai passando, urbanizações se sucedem e hoje a Paulista tem tudo. Tem modernidade, tem natureza, tem tecnologia, arte, vestígios de outros tempos naquelas casas que sobreviveram à fúria transformista. Na Paulista, o paulistano tem uma overdose de beleza plástica, colorido, sons, flores e cheiros.
Um símbolo do poder financeiro, com verdadeiras catedrais do dinheiro, onde circulam homens com seus ternos escuros e sua pressa obsessiva.
Quase no lugar do malogrado monumento, um túnel. Mergulhar e emergir dele nos coloca em contato com 62 obras de grafites coloridos, retratando os modernistas de 22, figurinhas saltitantes como Ets e outras formas mais livres. Agora, tem a rampa "anti-mendigo", que se espera seja colorida por novos grafiteiros. Com certeza perdemos alguns magníficos quadros cobertos pelo cimento. Polêmica aberta, fica uma sensação de interferência urbana com pouca ou nenhuma vantagem.
O simples colégio de jesuítas virou um complexo educacional moderno e atuante.
A residência de Horácio Sabino deu lugar ao Conjunto Nacional – o primeiro shopping da cidade, que já começa a parecer ultrapassado. Grandes espaços como não se fazem mais, aproveitados agora para exposições, "arte de reciclados" como as gigantescas estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança, comemorando os 400 anos da obra.
Ruas alargadas ainda não são suficientes para as 450 mil pessoas que circulam por elas dia e noite. A cada passo uma escultura, tornando a Paulista um museu a céu aberto que sempre se renova com arte popular como as atuais vaquinhas coloridas.
A Casa das Rosas agora é morada da poesia, de arte contemporânea, de música, teatro, e de novas mídias.
O Parque Siqueira Campos, que continua a ser conhecido como Trianon, conserva a área, cuida melhor da natureza, mas perdeu as preguiças. Ganhou parques infantis, esculturas como o Fauno de Brecheret, bancos, segurança e representa o oásis na efervescência da avenida, uma possibilidade de respirar ar puro, de ouvir o canto dos pássaros, descansar das andanças, ler um bom livro, meditar, não fazer nada. Guardado pela imensa estátua do Anhanguera à sua porta, está sempre disponível para uma pausa "descansante".
Atravesse a rua e encontrará o Museu de Arte de São Paulo, fruto da obstinação de Pietro e Lina Bo Bardi. É o Masp, famoso por seu vão livre de 80m, um paralelepípedo suspenso por dois pórticos, suas cores vivas que o salientam no conjunto arquitetônico da avenida. Tem um acervo de telas e esculturas famosas. E as exposições itinerantes reforçam o seu status de formador cultural. Até a estação Trianon-Masp do metrô está cheia de significados, do universo em torno da qual ela fica. Debruce-se sobre o belvedere ainda existente, e veja lá em baixo a saída do túnel que cruza a avenida o parque e o museu.
E numa tentativa de não deixar o passado desaparecer, lá está a Feira de Antiguidades no vão do Masp, pedaços da história comercializados aos domingos.
Hoje, tráfego intenso, com quase quarenta mil carros circulando por dia, densidade demográfica grande – com quinze mil pessoas residindo na avenida e população móvel muito maior. Prédios cada vez mais altos, com uma floresta de torres e antenas fincadas sobre eles, e que cada vez precisam ser mais e mais altas. Heliportos, uma modernidade necessária, já são seis.
Corredor de ônibus vê passar 512 veículos em horário de pico que engolem os passageiros em 38 pontos.
E agora, a avenida saturada, não cabendo mais no seu espaço natural, tem seu subterrâneo de metrô, circulando pelos seus 2kms com estações de decoração diversificada, sempre colorida, adequada e significativa.
Sessenta e nove prédios comerciais, setenta e dois bancos, trinta estacionamentos… onze centros culturais, seis livrarias e dois museus são responsáveis pela estrutura financeira, comercial e cultural da avenida e representam a Paulista em números.
A cada passo um restaurante, uma lanchonete, um ponto de alimentação. São quase meia centena que alimenta a população da Paulista.
Escolhida para manifestações populares, ela está sempre cheia de gente pacífica reivindicando alguma coisa.
Quando a noite cai, a Paulista muda de cara. Mudam as pessoas circulantes, muda o comércio. Bancos fechados, grandes escritórios aguardando o dia seguinte, os ambulantes tomam conta dela. São as ocupações informais que aparecem agora. Se alguém quiser pode até comer um yakissoba servido na calçada por um casal de chineses que mal fala cinco palavras em português, mas sabe o valor do Real, não erram no troco e são educados. Proliferam os artigos brilhantes e luminosos, as "petecas" de fios finos, coloridos que acendem em apagam. Chaveiros e enfeites que brilham e atraem o comprador pela visão. E circulam estudantes, noctívagos que freqüentam os muitos cinemas da avenida.
Quase não se vê mendigos nem moradores de rua na Paulista durante o dia. Eles foram banidos, empurrados para outros lugares. Não cabem mais nas calçadas, nos vãos dos prédios, sob as marquises. Mas, à noite, na avenida e nas ruas transversais, eles usam de seu direito de dormir sob as estrelas (?), à luz da lua – quando ela consegue se insinuar pelo vão dos prédios -, sobre jornais, mas com a sensação de liberdade que lhes é cara.
Salve Paulista. Nós paulistanos te saudamos.