Culturas misturadas: Jardim São Luiz

Toda coisa nova tem sua atração e, por ser ainda desconhecida, fascina a curiosidade humana. Com os lugares não é diferente, o seu lado oculto confere uma mistura atrativa de uma beleza existente e algo a criar pelo homem, tornando o lugar propício para o desenvolvimento de culturas e costumes diferenciados.
O bairro Jardim São Luiz era lugar para formação e mistura de todos que procuravam um lugar para fixar residência e formar raízes, preservando os mais vários modos de famílias de diversas raças. Os portugueses, já presentes na história e desenvolvimento do Brasil, foram formando o seu núcleo nas cercanias, com suas belas e variadas chácaras na qual cultivavam as diversas variedades de verduras, legumes e frutas.
Muito se deve a este início ao trabalho anônimo dos Teixeira, Oliveira, Pereira, Santos, Melo, Camisa Nova, Gouveia, Bastos, Souza, Machado, Caçador, Azevedo, Amaro e tantos quanto merecem a recordação das novas gerações, que nos orgulham por terem feito parte de nossa história.
Víamos ao longe plantações sem fim, num contraste formado pelo tapete verde ao redor da mata, local em que hoje se encontra a talvez menor vila incrustada no bairro, a Nagib Salem, possuindo um conjunto de casas bem assemelhadas. Lá mesmo via-se florir e aflorar o vasto campo cultivado e periférico que hoje os técnicos chamam de “cinturão verde”, responsável muitas vezes pelo abastecimento dos mercados municipais, inclusive o histórico mercado de Santo Amaro, bem próximo à margem da João Dias. O “cinturão” fornecia também muitos cereais, batatas, cebolas e cenouras, que abasteciam o varejo e um atacado incipiente de pequenos armazéns, já em desenvolvimento em lugares distantes, e eram transportados por animais, tracionando carroças atreladas.
Misturavam-se outros que tinham também suas raízes na terra e, no sangue da família circulava um soro sagrado chamado “trabalho”, o antídoto ideal para o tédio e o ócio. Depressão, palavra tão em voga nos dias atuais, não existia. Braços cansados e mente ocupada não davam condição para adquirir esta doença que encosta o homem, em uma sociedade que o rotula de velho, mesmo tendo pouca idade.
A cultura oriental, sempre vista com admiração pela maneira na criação e experiência de vida passada às gerações seguintes, estava aos poucos penetrando, também atraída pela terra. A língua portuguesa era de assimilação difícil e a mímica, descobri com o tempo, era a língua universal. Penso até que foi o modo das pessoas se comunicarem antes da fala e da revolucionária escrita, que fazem parte do desenvolvimento de povos e nações.
Muitos foram fixando-se de mansinho e criando novos modos de vida. No plantio estava lá o fruto que todo japonês cultiva com uma facilidade e de formas tão diferentes: o tomate. Engraçado, não sei se naquele tempo já tinha “isso ou aquilo modificado geneticamente”, mas já havia híbridos criados pela persistência japonesa sem muito barulho. Muitos foram criando raízes, os Furukawa, os Mori, os Hayachi, os alegres Watanabe, os Minamoto e tantos outros que, no anonimato, fizeram suas a nossa história, trazendo sua culinária de muito legume, arroz e peixe, e seus pratos se tornaram tão familiares que a mente registra com encanto: o “dashiko”, o “sashimi” e “sushi”, “gohan”, “imô”, “mamé” que nos eram presenteados como sinal de amizade e aproximação.
Infiltrou-se a raça alegre dos italianos ou os ditos “oriundi” da terra da bota do Adriático e Mediterrâneo, que vinham de lá trazendo suas “pastas”, massas de muitos modos de preparo: capeletti, rondeles, lasanhas, que eram regadas ao mais saboroso vinho, tão degustado pelos europeus, fazendo parte da alimentação dos Fatorelli, Fanna, Ianuzzi, Gallucci, Pavanato, Tartarotti, Garbieri, Angeloni, Dante, Scarpim e Granchi. Até hoje, na minha curiosidade, não entendo porque dobram as consoantes dos nomes tão sugestivos.
Alguns espanhóis com as deliciosas “paellas”, pratos compostos por frutos do mar e arroz, e as famosas castanholas de algum Sanches, Iniesta ou Garcia, a sapatear em vestimentas vermelhas e pretas, num rodopiar à moda flamenca.
Os alemães também contribuíram, como fizeram no passado em suas colônias de Santo Amaro. Muito joelho de porco, chucrutes e doces diversos, colaborando para o desenvolvimento de boas cervejas, cuja denominação lembra a terra alemã, Baviera. Assim, os Staff e os Schmidt tiveram sua participação junto a todo este conjunto, que bem se assemelhava aos Rybczynski, poloneses admiradores de um bom “giminogue”, prato de derivados da carne de porco e muitos embutidos, que pendiam a defumar em varas de pau, aproveitando-se a fumaça dos fogões à lenha da época.
Muitas esperanças misturadas, muitas vidas assemelhadas deram o contraste marcante de variações belas ao rico cardápio local, onde os sorridentes baianos, com seus acarajés, cocadas, ensopados de peixe, moquecas, sarapatéis, com muito dendê e pimenta, além da aguardente dentro do coco que, envolto num jornal, era enterrado no terreiro pra que a bebida curtida fosse consumida em algum dia bem especial ou numa visita, como faziam os bons compadres.
Nossos tão familiares mineiros iam se achegando meio desconfiados da cidade grande, devagarzinho se aproximando, trazendo na bagagem, ou melhor, trouxa, os “trem” bem enrolados, um certo “jeitinho” típico. Apreciadores de um bom queijo mineiro, cujo soro era espremido num pano de saco bem alvejado, sobrando a massa que, compactada, formava o queijo tão saboroso. Claro que era um modo caseiro e o leite provinha de criadores locais que o vendiam a granel em litros, consumidos por boa parcela de moradores. Sem contar o tutu mineiro com toucinho em pequenos pedaços, os torresmos, “eta sô”, coisas de arregalar os olhos e atiçar lombriga.
Depois outros lá mais de “riba do Brasil”, pernambucanos, cearenses, meio aloirados, talvez pela mestiçagem de holandeses com nativos que deram forma e graça ao povo do lugar. É inesquecível o “baião de dois”, uma “minestra” como alguns chamavam no interior paulista, com tudo de direito: carne em cubos, queijo derretido e toucinho, bem ao estilo do povo nordestino.
E outras mais iam entrosando-se, misturando-se, trocando prosa e experiências, às vezes até cruzando famílias de costumes diferentes por culpa do cupido e de Santo Antônio casamenteiro, que “fincaram” raízes no novo bairro paulistano e forneciam toda condição para que a felicidade tornasse a vida agradável, ajudando a estruturar novas famílias, na busca da formação do caráter dos orgulhosos filhos paulistanos.

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