Convido-os para visitar o Edifício América, aliás Martinelli.
Estamos no início dos anos 60, e eu era um jovem desenhista, começando a ganhar o pão com o suor do rosto.
Para um principiante, trabalhar no Martinelli era uma experiência e tanto. Vamos entrar por uma de suas portas, a da S.Bento. O belo hall, com magníficos candelabros, a fileira de elevadores à direita.
Entremos no elevador. Uma pessoa, que pode ser o ascensorista, ou um simples inquilino, sem nenhum uniforme, canta "Rosa", de Pixinguinha.
E como canta bem, parece até Orlando Silva! O elevador pára no 19º andar. Desço, dobro o corredor à direita, onde uma sombria arcada está me esperando.
Dentro, o ambiente é escuro, com várias portas numeradas. Minha sala é a 1922, que divido com três amigos, todos grandes desenhistas.
Pronto. Subo a minha prancheta, começo a pensar no que fazer, e certamente muitas surpresas irão tirar minha concentração.
De um canto aparece Julio, estremunhado. Morador de Vila Luzita, em Sto.André, às vezes passava a noite ali, embrulhado sob sua mesa, pois a editora, mais uma vez, atrasara o pagamento, e ficava
muito dispendioso tomar várias conduções, até casa.
Eis que Lyrio, descendente de espanhóis, temperamental e investigador bissexto da Polícia Civil, irrompe na sala.
Saca seu revólver e fulmina os céus do Anhangabaú, postado bem lá embaixo.
O último, Waldyr, hoje não virá. Também investigador, estará cuidando dos preparativos de seu casamento, e seu cunhado quer que ele assuma a direção de uma grande loja de móveis para cozinha.
Muita gente ainda passaria pela nossa sala, pois, jovens, alegres e talentosos, formávamos um grupo bem diverso do já heterogêneo conjunto dos freqüentadores do prédio.
Para mim, era um admirável mundo novo, com aspectos bons e sombrios. Havia de tudo, ali. Gigolôs e prostitutas, vendedoras sexy de cafezinhos, malandros, jogadores, gays, bancários e outros sindicalizados, lutadores de Judô da Academia Ono. Comerciantes, dentistas, alfaiates.
E mais, bares e botecos, bilhar, cabeleireiro. O Martinelli era um mundo, e até poder-se-ia viver lá, sem sair para quase nada.
Acho que muita gente fazia isto.
Apesar dessa diversidade, e haver facetas de sordidez, nunca senti nenhum perigo, nos dois anos que lá fiquei. Confraternizávamos com as garotas e os moradores, num clima amistoso.
O vetusto Martinelli era como um templo, pronto a receber todos, santos e pecadores. Sua presença solene garantia o sentimento de respeito e comunidade que tinham estas pessoas, mesmo sendo tão diversas.
Depois saí de lá, e soube que edifício decaiu muito mais, tornando-se insalubre e perigoso. Como contrapartida, foi reformado, expulsos todos seus habitantes e os resquícios do passado. Como faziam os antigos romanos como as cidades conquistadas, foi arrasado, só faltando mesmo uma mão de sal por cima. Tabula rasa!
E daí renasceu, limpo, asséptico e impessoal. Uma imensa repartição pública,com balcões e divisórias,onde tímidos amanuenses talvez surpreendam,numa noite de plantão,alguns dos fantasmas do seu turbulento passado,aprontando ainda alguma pelos corredores,agora imaculados como os de um hospital.