Convite de casamento

Quando resolvi me casar eu gostava das coisas mais simples, por esta razão recusava-me seguir alguns padrões da época. Nada por revolta ou ser do contra, mas porque não via utilidade alguma. Por exemplo, eu achava muito repetitivo e sem graça os enormes convites de casamentos que normalmente eram brancos e escritos em dourado ou preto e com muitas informações familiares. Além disso, eu pensava na quantidade de matéria-prima que seria usada na sua confecção, que na minha visão era um desperdício.<br><br>Um convite nos moldes mais tradicionais ficava muito caro e eu, com certeza, preferia gastar o dinheiro que tínhamos de forma mais útil. Então, quando fui contratar a confecção do meu convite de casamento, optei por um tipo pouco usual e que fugia ao padrão das escolhas da maioria das noivas. Claro que o dono da loja se opôs e me disse que iria ficar feio e mal visto, mas eu não liguei e fiquei firme na minha proposta.<br><br>Comecei pela cor do convite e escolhi a vermelha, minha preferida, porque para mim ela representava alegria, força e vivacidade e era importante que eu revelasse essas sensações a todos que iriam participar do meu casamento. O tamanho também foi diferente, compunha uma tira dobrada que não passava de cinco centímetros de largura por quinze de comprimento dentro do envelope que também era desse tamanho. Na parte da frente havia o desenho de um carro branco carregando os móveis e no gancho estava escrito: estamos de casa nova. No corpo do convite dizia o seguinte: Vamos casar no dia 22-4-72 às 16 horas na Igreja São Domingos, Rua Caiubi, Perdizes. Contamos com vocês. Nossa casa será na Rua Santo Antero, 39 apt. sete, Penha, Margarida e Cezar Rogerio O. Peramezza. <br><br>Quando começamos entregar os convites, vinha sempre um espanto de quem o recebia. Primeiro a cor que causava uma admiração, segundo o local da cerimônia, uma igreja que não era da paróquia da noiva. Afinal, eu havia nascido e crescido no bairro da Penha de França, que desfeita era essa! Nada disso, jamais faria uma desfeita para o bairro que sempre amei. Na verdade fui me casar em Perdizes porque os casamentos feitos na igreja dos dominicanos eram iguais para todas as noivas, sem pomposidade, sem riqueza e sem comércio. <br><br>Tudo era muito simples, sem enfeites, sem coral, sem aquele alvoroço que eu via nas outras igrejas. O máximo que os dominicanos colocavam era um tapete para a noiva entrar. A igreja tinha a beleza do seu dia a dia e foi por isso que me encantei e escolhi me casar ali. Não quis festa de casamento, mas meus pais fizeram uma recepção para os parentes que vieram do interior. Não tive álbum de fotografias, apenas alguns registros que meu irmão tirou com a máquina Kodak que ainda tínhamos. Meu vestido era bem simples, branco tipo tubinho e na cabeça uma grinalda de flores com um véu bem longo.<br> <br>Um grupo de alunas da escola em que eu trabalhava preparou o meu buquê que eram de flores naturais, muitas margaridas, daquelas bem miudinhas, todas amarradas uma a uma em fitas de cetim branco. Fiquei emocionada quando elas chegaram em casa trazendo com todo cuidado, quase na hora deu eu sair para igreja, o mais lindo dos buquê de margaridas. Guardei meu convite de casamento e por muitas vezes o mostrei para minhas filhas e hoje mostro para meus netos e lembro, mesmo que por instantes, que naquela simplicidade existiu muita felicidade. Fui muito feliz no meu casamento.<br><br><br>E-mail: [email protected]