Difícil decisão

Minha tia se casou meio tarde (para a época), contrariando o desejo do vovô. Ele não queria o casamento, pois dizia que o rapaz não era adequado para ela, pois, além de não gostar muito (ou nem um pouco) de trabalhar, bebia muito além da conta. Mas ela ficou irredutível e se casou assim mesmo!

Moravam no bairro da Penha, mas um pouco distante de nossa casa. Tiveram seis filhos que estavam sendo criados em meio a grandes sobressaltos e muitas necessidades. Certa vez, ele embriagado, jogou a filhinha mais velha (que era um bebê, na época) na chuva! Vivia ameaçando a todos e meu avô, coitado, mandava mantimentos e tudo o que era necessário para sobreviverem.

Meus tios aconselhavam a minha tia para deixar o marido, que o seu pai cuidaria dela e das crianças e que estariam seguros lá em casa. Mas acho que era muito difícil para ela tomar essa decisão.

Certo dia, meu avô descobriu que ele comia todo o leite Ninho mandado para as duas pequenas, à revelia da esposa e tomou uma decisão: todos os dias, íamos, meus irmãos e eu, à casa deles levando o leite para as bebês, mas não em quantidade que sobrasse para ele e trazendo o primos para passarem o dia conosco (acho que isso foi nas férias escolares, não me lembro com certeza), e, mediante isso, a titia concordou em, aos poucos, mudar-se para a casa do seu pai, sem que o marido percebesse. Levávamos o leite e trazíamos roupas e objetos pequenos. Fizemos isso por um bom tempo.

Certo dia, meus tios chegaram na casa, tiraram a família de lá e apresentaram uma ordem de restrição para o meu tio, explicando-lhe que ele nunca mais poderia chegar perto de sua família! Foi muito triste tudo isso, mas o vovô, que já havia acolhido à mamãe com seus quatro filhos pequenos, acolheu, também, a outra filha com seis filhos!

Construiu uma casa para eles no quintal e todos ajudavam na manutenção, apesar do grosso ficar a cargo do meu avô. Cada padrinho assumia algumas despesas de seu afilhado. Depois de um bom tempo, soubemos pelas irmãs dele que ele havia parado de beber e que estava
– em uma tremenda demonstração de força de vontade – trabalhando em um bar de um seu cunhado. Depois disso, só tivemos notícias quando de sua morte, há muitos anos.

De tudo isso, reitero que meu avô foi muito além de sua função de pai e avô: foi um lindo e nobre anjo da guarda em nossas vidas! Que Deus o abençoe sempre!

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