Ela si sintia balofona…
Meteu a iscova nus dentis c'uma puta forza qui até si pensô vê u sangüe das gingiva naquele cazzo di mare di spuma bianca.
I cum raiva tamém mi passô us fio dentar, denti per denti e, dispois si meteu a iscova na linguona. Sintiu di novo uma puta vontadi di vumitá.
Passou umas meleca na cara – us tar crema di bellezza, si ispiô nu ispelhu ondi só si aparecia aquele camisolão enorme e pefumadinho.
Sintiu uma puta farta de ar para colocá nus pé aquela lancha qui ela chama di sapato. Teve di si jugá nu chão prá cunseguí. Mesimo assim, aquelas tetonas enormi só atrapalhava.
Ela mi tava si sintindo um hipopótamo. Desdi que tirô as aliança da mano isquerda, lá nus imprego. Si lembrava-se das cornada qui deu nu pobri du marido, cum aqueli colega di trabalho…
U controllo rimoto da televisón, us travissero arto, i nadinha di puxá uns ronco.
Si sintia uma baleiona. As mulhé balançavam u rabo na TV. Us omi balançava us suos badalo na TV. Ela mi assistia u Jô Soaris tudas as noite i aparlava qui eli mi ficava mais milhor gordón qui magrinho.
Si sintia uma porcona. Si inchia o rabo de cumida antis di i prum jantari, i quandu saia, dava um pulinho nas lanxonete prá dá uma forrada nus istomago, qui ela num mi quiria durmi di pança vuota. Tava si sintindo uma elefantona.
Mi vortava pru ispelho tanto iluminato da privada, maise prá quê? Si sintia balofona… Si olha nu ispelhinho da borsetta, si insciuga c'um paninho bianco qui ela mi "passou a mão" lá numa loja dus Tatuapé. Si olha di novo. Us pé di galinha tavam tudo lá, im vorta dos zóio tristi, grandi i interrogativo qui ela tinha.
Ai, ela mi cumeça rí igua l qui nem uma pazza, uma locona. Mi tava istérica! Tantu qui a mulher qui morava na casa vizinha, mi fica batendo nas janela c’um sapatão vermelhu qui tinha um sartão di déiz centímetro pra vê si ela parava.
Cê tá pensandu qui essa mulher mi tá chorandu? Ela num mi chora! Mi rí! I rindo, ainda, mi sorta us cabelu tingidu, i mi cavarga tutta a noite nas lembrança du cunvite ricebido, u ballo daquela noite. Disfilaria u vestidinho, que seu marito si deu pra ela, i qui eli si cumprô la na "Gordigna Eleganti", um negozzio la du bairro das Mooca. A viage dela até SPA ela mi dexa para as segunda-feira, quandu vá cumeçá u novo rigime…
Wirço – Tradutore i parlatore dus patuá da Mooca – Mochese – Parlato nas rua Caetano Pinto, Ipanema, 21 de Abril, Assumpção, Carneiro Leão etc.
* Estava se sentindo gorda…
Escovara os dentes com tanta força que pensou ver as gengivas sangrarem naquele mar de espuma branca. Furiosamente passou o fio dental, dente por dente e, por fim, escovou a língua. Sentiu náusea novamente. Passou creme no rosto, fitou-se no espelho onde reluzia a camisola limpa, ampla, cheirosa.
Jogou-se no chão para sentar. Sentia falta de ar pra colocar os sapatos. Os fartos seios lhe atrapalhavam.
Estava se sentindo gorda. Desde os tempos que ocultara a aliança da mão esquerda no emprego. Recordara a amizade a cores com o colega de trabalho…
O controle remoto, os travesseiros tão altos, nenhum sono.
Estava se sentindo gorda. Mulheres rebolavam na tevê. Homens meneavam o púbis na tevê. Assistia ao Jô Soares todas as noites e comentava: – Eu acho que ele fica melhor gordo do que magro.
Estava se sentindo gorda. Jantava antes de ir a um jantar, e quando saía passava numa lanchonete pra não dormir de barriga vazia. Estava se sentindo gorda.
Retornava ao espelho do banheiro tão iluminado, para quê? Estava se sentindo gorda… Olha-se no pequeno espelho da bolsa, enxuga-se com pedaço de pano alvo furtado da loja no Tatuapé. Olha-se novamente. Rugas, ainda que poucas, ao redor dos olhos tristes, grandes, interrogativos.
Desata num riso tão louco, histérico, que a moradora da casa vizinha bate na janela com o salto dez do sapato vermelho.
Pensa que chora esta mulher? Não chora! Ri! E rindo, ainda, solta os cabelos tingidos, e cavalga a noite inteira na lembrança do convite recebido, o baile daquela noite. Exibiria o vestido, presenteado por seu marido, adquirido na "A Gordinha Elegante", loja do bairro da Mooca. A ida em SPA deixara para segunda-feira, quando iria iniciar o novo regime…
* Tradução efetuada cortesmente por Wilson Natale, autor e assíduo escritor do São Paulo Minha Cidade, "expert" no idioma "moquense" (também conhecido como orra meu!). Tradutor juramentado e herdeiro natural de "Juó Bananière", criador do "Português Macarrônico", mistura dos dois idiomas falado no Brás e Mooca…
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