Confeitaria Vienense e adjacências

Outro dia fomos ver um filme, "Down With Love", com Reneé Zellweiger. Embora assistido num Cinemark de shopping, bem poderia ter sido num dos cines da Galeria California, com Doris Day e Rock Hudson, em plenos anos 60.

Foi a esse tempo que fui transportado com a pergunta de uma senhora sôbre a Confeitaria Vienense. Nessa época eu era um jovem executivo de propaganda, com muitos sonhos, ambição e adrenalina percorrendo as veias.

Estava na mente coletiva: sonhava-se um Brasil melhor, sentia-se o clima de desenvolvimento. Tínhamos Brasília, a Bossa Nova, o Cinema Novo. Éramos campeões do mundo. O Céu parecia ser o limite.

Sofisticação era o ar que se respirava por ali. Podia-se sentir. Passava pela Sete de Abril, a nossa Madison Avenue; girava pelo Pari Bar, pela Gruta Azul, na São Luís. Descia a D. José de Barros e enfurnava-se pela galeria California.

Esta parecia sintetizar todo esse clima: ali haviam cinemas, livrarias, uma boate, o Café Mocambo, onde, dizem, foi introduzido no Brasil o "expresso", o café italiano. Por ali passavam moças fabulosas, figuras esvoaçantes, com seus penteados armados,vestidos "saco", meias de seda e perfumes estonteantes.

Com nossos ternos justos, gravatas estreitas e óculos escuros, procurávamos atrair a atenção dessas deusas, aparentemente inacessíveis.

E bem ali em frente, um lugar mais que perfeito para convidar uma dessas damas. Era só atravessar a Barão.Subia-se um lance de escadas e já se escutava o som da música.Era como voltar ao passado.

A Confeitaria Vienense, com seu ar "fin du siécle", parecendo saída de um quadro de Renoir, ou Degas. Corriam, entre meus colegas, boatos de que senhoras ricas, mas fanadas, frequentavam aquelas mesas, tentando atrair rapazes, com olhares lascivos e gastos. Estive poucas vezes lá, mas não notei nada disto.

Recordo-me porém do som suave de um piano, de cadeiras de veludo já com esfolões de uso. Os garçons quietos e atenciosos, como fantasmas de um tempo já esgotado. E era verdade, brevemente uma época de violência, do utilitarismo brutal, do lucro desumano, varreria esta e outras instituções que resistiam em mostrar-se cordiais e humanas.