Conexão Telefônica Bairro do Limão – Barra Funda

Do Bairro do Limão até a Barra Funda. Este era o caminho percorrido por meu pai, de ônibus, durante vinte anos, de 1968 a 1988, pois ele trabalhava na empresa Fernando Alencar Pinto S/A, fabricante dos ventiladores Bomclima e dos modeladores/massageadores Bel Linha.

Morávamos na Rua Glauco Velásquez, no Bairro do Limão, e a empresa era localizada bem na esquina da Barão de Limeira com a Lopes de Oliveira, num galpão enorme, no qual de um lado, comportava escritórios, e do outro, a própria fábrica, onde os produtos eram confeccionados. Ele, almoxarife, responsável pelo controle dos materiais e peças, também trabalhava aos sábados, para adiantar o serviço e fazer horas extras (dinheiro necessário para complementar o salário mensal).

O que me lembro dessa época é que eu e minha inseparável irmã, respectivamente sete e cinco anos de idade, vez ou outra, íamos com meu pai passar o sábado lá com ele no trabalho. Quando isto acontecia, levantávamos cedo, descíamos até o Largo do Limão e tomávamos o ônibus da linha 922, com destino à Avenida Paulista, cujo trajeto passava pela Rua Barão de Limeira na Barra Funda, em frente ao Colégio Boni Consili, ponto em que descíamos. Era uma diversão para nós passarmos o dia na “firma”, observando ele trabalhar ou “brincando” com as máquinas de escrever do escritório, sempre uma novidade pra nós.

Algumas vezes, havia-se a necessidade de falar com meu pai no trabalho e não possuíamos telefone em casa – que era um luxo na época; nem existiam orelhões em cada esquina. Assim, descíamos até o Largo do Limão, no final da Avenida Celestino Bourroul, onde havia cabines telefônicas para utilização pública. Lembro-me do lugar, uma pequena construção com paredes de cor amarronzada e com uma série de telefones, na cor preta, divididos por repartições, para a privacidade das conversas. Para que os mesmos funcionassem, era necessário se utilizar as tais fichas telefônicas. Ah, e como aqueles aparelhos eram pesados!!! Talvez o peso parecesse maior do que realmente fosse, só pelo fato de sermos crianças, quando tudo parece numa dimensão maior do que realmente é. Numa dessas ocasiões, em que minha mãe decidiu ir telefonar para o meu pai, também eu e minha irmã queríamos dar uma palavrinha com ele.

Minha mãe disse: “Tá bom, mas depressa senão a ficha acaba”. E logo emendou:
“E pede pra falar com seu pai, Seu Donato”. Assim sendo, ela discou o número e passou o telefone imediatamente pra minha irmã. Logo que atenderam lá na fábrica, minha irmã, com apenas uns cinco anos de idade na época, disse: “Quero falar com meu pai”. Passavam-se alguns segundos e ela, escutando o que diziam do outro lado, repetia já um pouco mais alterada, esquecendo de citar o nome do nosso pai, mas falando pausadamente, para a pessoa entender com quem ela queria falar: “Eu.. Quero… Falar.. Com… Meu.. Pai”.

Minha mãe, cochichando e dizendo: “Pergunte pelo Seu Donato”. Eu já estava ficando angustiada com toda aquela confusão, e me perguntava: “Mas como é que meu pai não está lá!!???”. E ela ainda no telefone, respondendo as possíveis perguntas do paciente interlocutor do outro lado da linha: “Mas quem é o seu pai??? E quem quer falar com ele?”.

Penso que, na cabecinha dela, era um absurdo o fato de que ninguém conhecia o tal pai dela e desembuchou: “Meu pai é meu pai, ué!!! E eu?? Sou a filha dele!!”.

Minha mãe, arrependida do que havia feito, ou seja, deixado uma criança de cinco anos conduzir uma conversa telefônica e notando que, logicamente, o dialogo não ia pra frente, pegou o telefonou e explicitou constrangida: “Desculpe a minha filha, ela sé tem cinco anos e esqueceu de falar o nome do pai dela, “Seu Donato”. E a gentil pessoa que atendeu estava rindo e comentou: “Bom, aqui na fábrica nós temos uns cem funcionários e a maioria daqui são pais. Ia ser difícil achar o tal pai”.

Assim que o mal entendido foi esclarecido, falamos com nosso pai. Minha irmã até hoje lembra do fato e me autorizou a contá-lo. Daquele dia em diante, aprendemos que o nosso pai tinha um nome, "Seu Donato". Ah! Boas lembranças das cabines telefônicas do Bairro do Limão, e da firma em que meu pai trabalhava lá na Barra Funda.

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