Tenho origem em uma família pobre, daquelas pobrezas dignas das famílias descendentes de imigrantes. No meu caso, de italianos por parte de mãe e espanhóis por parte de pai.
Família trabalhadora, batalhadora, cumpridora dos seus deveres e para a qual nunca faltou casa, comida e tudo o mais necessário à subsistência. Fazia-se macarrão em casa com ovos das galinhas que tínhamos no quintal – não é preciso dizer que o frango assado do domingo também saía desse mesmo quintal. Tínhamos legumes e verduras, plantadas e colhidas da horta.
Reflexo do pouco dinheiro para as compras eram os miúdos que comíamos: miolo de vaca, rabo, bucho, fígado, coração, que os matadouros descartavam e eram vendidos de porta em porta nos bairros da cidade. Hoje são iguarias de chefs e gourmets. Havia também os vendedores de sardinha e manjuba.
Pelo que se vê, nos alimentávamos muito bem e barato. Minha mãe fazia uma polenta com bucho ao molho de tomate que era uma delícia! Nunca jogou comida fora. Tudo era aproveitado! Bolinho de arroz, sopa de feijão e por aí vai.
Bem, isto que estou contando não é novidade para ninguém, já que pelos relatos que tenho lido aqui no site, quase todos nós tivemos estas vivências. Um aparte para o Modesto: a descrição de sua "calça com suspensório de pano" foi simplesmente deliciosa!
Meu pai era pintor de paredes e, depois de casado, aprendeu com meu avô e tios a pintura de automóveis. Chegou a ter, com um sócio, uma oficina de mecânica, funilaria e pintura, lá no alto da Mooca, na Rua Teresina.
O que tudo isso tem a ver com a Raimunda? Lembram-se da Raimunda, que fazia parte de um grupo de mal feitores que atacava as velas dos motores dos carros? O Chico Carvãozinho e não me lembro de todos? E aí entrava em ação o óleo Bardhal e acabava com a sujeira e com a farra deles? Pois é, é dessa Raimunda que estou falando.
O caso então é que, sendo filha única, meus pais queriam fazer para meu casamento tudo do bom e do melhor que as condições permitiam. Minha mãe vinha fazendo meu enxoval há anos (já falei dos enxovais em um outro texto aqui no site). Juntava o dinheiro que podia para o vestido de noiva, uma festinha em casa para poucos amigos e familiares, a roupa dela e de meu pai, um pouco de flores na casa. O noivo e sua família também não diferiam da nossa, com a diferença de que eram do interior do estado.
Tudo pronto, data e igreja marcadas, faltava apenas um detalhe: meu pai deveria alugar o carro que me levaria à igreja.
Ele tinha um freguês na oficina que, no seu dizer, era rico porque tinha um Galaxi novinho em folha. Não teve dúvida: conversou com o freguês, contou-lhe que sua única filha ia casar-se e ele queria o mais bonito para ela! Será que ele poderia levá-la à igreja no seu Galaxi?
Naquela noite, ao chegar em casa para o jantar, vinha radiante! Trazia no rosto um sorriso único e feliz, mas muito feliz! Deu-nos a notícia: o dono do Galaxi aceitara o pedido de levar-me à igreja!
E assim foi: no dia 26 de maio de 1964, às 17h00min, o Galaxi parou na porta de minha casa e, pela mão de meu pai, vestida de noiva, entrei naquele carro que, dirigido pelo seu proprietário, elegantemente trajado, levou-me à Igreja Sagrado Coração de Jesus, nos Campos Elíseos!
Trouxe-me de volta, já casada, e há uma foto em frente a minha casa em que meu marido me dá a mão para eu descer do carro, segurando meu buquê e sorrindo para ele. O dono do carro gentilmente segura a porta aberta, e no vidro lateral do carrão está um adesivo grande com a Raimunda e o óleo Bardhal. "Tudo anda bem com Bardhal"!
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