Colar de Cristal

Adoro ver a noite chegar. Fico à espera da lua, e quem sabe junto ganho de brinde o brilho de algumas estrelas. Sei que aqui em Sampa é raridade uma noite estrelada, mas estou lá, quase sempre, sem perder a esperança. Mas, tanto que quis, ganhei e lá estavam elas, a lua e algumas estrelas, momento mágico pra mim. Encantada com essa beleza toda e com olhos fixos no céu, tive por um momento, a impressão de estar vendo um filme, o da minha vida. E não é que voltei no tempo?! Tempo lá de casa, quando ainda era uma menina.<br><br>A família era grande e, com base nos princípios religiosos da Igreja Católica, aprendemos a dar valor e significado para o dia de Natal. Ainda crianças, em nossos pequenos corações desabrochava um amor grandioso pela época natalina, e esperávamos, com brandura e satisfação, a comemoração do aniversário de Jesus. Claro que meu pai nunca deixou de nos presentear, mas sabíamos que a razão principal era outra.<br> <br>Como de costume, nos preparávamos para o grande dia com o que tínhamos de melhor: ceia, árvore, luzes, enfeites, e claro que os presentes também. Era delicioso e agradável curtir o mês de dezembro. Paz familiar, paz com amigos, parentes, vizinhos, etc. Minha casa permanecia aberta para todos e lembro que, após a Missa do Galo, recebíamos abraços da vizinhança mais próxima e que tinha uma grande admiração pela família Pedroso.<br><br>Naquela noite não foi diferente. Tinha por volta de treze anos, e comemorávamos mais uma vez o nascimento de Jesus. Após saborearmos a deliciosa ceia, nosso Papai Noel chegava, e com ele nossos presentes. Na verdade, meu pai os colocava na árvore enquanto nos fartávamos daquele banquete. A tarefa de abrir primeiro o presente cabia à minha mãe: um lindo par de brincos e um anel (tenho guardado como lembrança dela); depois, a nossa vez. <br><br>Que emoção: quando abri minha caixa, me deparei com um colar de cristal. Era, na verdade, meu primeiro colar e, naquele momento, tive a sensação de ter crescido rapidamente. Ontem, menina que ainda brincava de bonecas; hoje, uma mocinha à altura de usar um colar de cristal. Me senti grande e forte. <br><br>O mais importante de tudo é que foi dado pelos meus pais, e isto representou, para mim, o reconhecimento de que algo na minha vida, daquele momento em diante, seria diferente. Uma nova fase se iniciava, e o colar de cristal foi um marco nisso tudo. Minhas irmãs também ganharam, neste dia, um colar de cristal, sendo diferenciados apenas pela cor: o meu, verde, mas não faltou o rosa da Madalena, o transparente como água da Maria de Lourdes e o petróleo da Bernadete; todos muitos lindos.<br><br>Os dias que se seguiram nunca mais foram os mesmos. Meus olhos, hipnotizados por esta magia, brilhavam como o cristal, e o meu coração, mesmo com as batidas aceleradas, sentia, ao mesmo tempo, segurança e medo de atrair os encantos desta nova fase. Foi uma explosão, uma revolução que aconteceu em mim.<br><br>O colar de cristal marcou minha vida, não pelo valor material, mas pelo significado que meus pais quiseram passar. Uma forma carinhosa de dizer eu poderia dar um passo a mais e que eu havia crescido; isso que senti naquela época. Por um tempo fiquei confusa, não sabia se colocava o colar ou se brincava de boneca, mas, como a vida é sabia, logo colocou em ordem os meus pensamentos e tudo foi se acomodando da melhor forma.<br><br>Com o tempo, consegui me desfazer de tantos outros presentes que ganhei. O único que ficou e que guardo até hoje é o colar de cristal. Muitas vezes fico apenas segurando-o. Como se fosse meu talismã, acaricio passando meus dedos pelas pedras que ainda possuem o mesmo brilho, como das estrelas. Aí vem as lembranças, e meus olhos marejam.<br><br>e-mail do autor: [email protected]