Coisas do Divino

Às vezes nos acontecem certas coisas que nós, simples mortais, nos questionamos calados, remoendo em nossos pensamentos. Será que havia um anjo comigo? Será que minha hora não havia chegado? Ou simplesmente foi uma coincidência do destino?

Pois é, nesse dia, um final de semana do ano de 73 ou 74, (não sei dizer precisamente se era sábado ou domingo) eu e meu marido resolvemos ir até a cidade de Aparecida do Norte, como todo bom cristão, fazer uma visita a Nossa Senhora Aparecida e pedir a ela a proteção para que tudo desse certo com o carro novo que ele havia comprado.

Meu marido é daquelas pessoas que gostam de sair de casa assim que o dia começa, muitas vezes ainda está escuro. Segundo ele, é mais fácil viajar sem o sol batendo em seus olhos ou o calor abrasivo dentro do carro, pois não havia ar condicionado.

Nessa época eu morava na Rua Soldado José Antonio Moreira, no Parque Novo Mundo, bem próximo à escola de samba Vila Maria.

Arrumamos nossas coisas: uma troca de roupa, um guarda-chuva, pois sempre chove quando vamos para lá e um breve lanche com água para enfrentar a viagem que prometia ser cálida.

A rodovia que nos leva para Aparecida, todos conhecem, é a Presidente Dutra, e por nossa sorte ficava a alguns metros de nossa casa, portanto não precisaríamos enfrentar o trânsito para atravessar a cidade de São Paulo, bastava algumas quadras e lá estávamos nós, nas primeiras horas da manhã, rumo a Aparecida.

Tudo corria bem, muitos carros iam na mesma direção, mas nosso “Fuscão” amarelão cumpria a sua missão sem problemas até que eu comecei a ficar impaciente. Já estávamos na chamada reta do Parateí, perto do pedágio. A minha impaciência era porque eu queria urinar, já não estava suportando de tanto segurar as minhas “necessidades”. Pedi a ele que parasse no posto de gasolina que ficava ao lado da pista; hoje, se não estou enganada, deve ser o restaurante Graal.

Ele, muito a contra gosto, reclamava o tempo todo que iríamos chegar tarde ao destino, que o sol estaria muito quente, etc. e tal. Mas parou. Aborrecido, ficou a minha espera junto a algumas árvores ao lado do restaurante. Eu em uma disparada, adentrei ao toalete das damas e demorei o mínimo possível, pois sabia que o humor do Sr. Antonio Carlos não estava dos melhores.Ao sair dali, deparei-me com um cercado ao fundo do restaurante. Nele havia muitas aves ciscando na grama. Achei aquilo fantástico e aproximei-me mais de perto para observar melhor. Percebi que se tratavam de perus, provavelmente criados para serem abatidos pelo restaurante. Indo mais para perto, comecei a assobiar para as aves e estas, por sua vez, respondiam com o ruído característico dos perus “glu glu glu glu”. Gente! Achei aquilo o máximo! Quanto mais eu assobiava, mais perus se aproximavam.

Meu marido, que já estava de mau humor, saiu do carro e veio ao meu encontro, nervoso e esbravejando tudo o que podia; gesticulava, pedindo que eu voltasse para o carro a fim de seguirmos a viagem. Eu estava adorando e consegui ficar por ali mais ou menos uma meia hora.

Finalmente concordei com ele em seguirmos a viagem, pois o homem já estava ficando sem muita paciência. Quando nos preparávamos para retomar a pista da Dutra, fomos barrados pela Policia Rodoviária Federal, que estava desviando o trânsito por dentro da cidade de Santa Izabel. No momento não soubemos o que estava acontecendo e juntamente com os outros carros, seguimos na direção indicada pelos policiais. O acesso à Dutra ficava bem depois do pedágio e de lá dava para perceber o motivo do desvio. A cerração naquela parte do Parateí é muito intensa e os carros que vinham pela Dutra, mais precisamente os que estavam na frente e atrás do nosso veículo, estavam todos envolvidos em um acidente terrível, onde os veículos pegaram fogo e muitas pessoas morreram queimadas.

Diante daquela cena dantesca, meu marido olhando para mim desabafou:
– “Olha! Daqui para frente você pode parar a qualquer hora, em qualquer lugar, e demorar o quanto quiser que eu não vou reclamar mais.”

E tem sido assim até hoje. Foi ou não, a providência Divina?

E-mail: [email protected]