Coisa da Pauliceia, mas sem desvario

Passeio por variados sites com interesse em saber. Saber sempre um pouco mais, podendo partilhar algum conhecimento com alguém que também tenha esse tipo de apetite.
 
Inevitavelmente, ligo o computador pela manhã, passeio pelo noticiário e me desanimo. Sempre. Mas penso que tudo o que existe por aí é o resultado daquilo que somos, pensamos, sentimos, do como agimos. Não existem alienígenas vagando pelo planeta. Pelo menos eu espero. E entendo que temos boas intenções, mas nos perdemos constantemente no meio a milhões de abismos e enganos. Tudo é passageiro. Mas os erros estão aí e precisamos buscar soluções e o tempo é curto.
 
Lendo na edição eletrônica da Isto é Independente, de 27 de janeiro deste ano, me deparo com a seguinte reportagem:
“O médico afegão, um dos 4,5 mil refugiados do Brasil, enfrentou a guerra em seu país, fugiu da perseguição política no Irã e foi obrigado a trocar o avental branco pelo trabalho nas oficinas de costura de São Paulo”.
 
Com o interesse de várias editoras na publicação de obras literárias de alguns países do mundo árabe nos últimos anos, acabei conhecendo um pouco mais daquele espaço e me apaixonando por aquela cultura. Tratei de ler vários daqueles livros limpando as lentes da alma, os óculos dos preconceitos criados e expandidos depois do 11 de setembro. O duplamente famigerado 11 de setembro! Em 73, era Pinochet que derrubava Allende e, quase três décadas depois, o capitalismo sofrendo os seus abalos, levando para a sepultura mais de três mil almas.
 
E comecei a perceber o sofrimento sincero, em um sentido muito mais amplo, daqueles homens e mulheres que lutam para simplesmente ser. Meninos que inventam espaços para um jogo de futebol, mesmo as minas terrestres estando bem ali ao lado, mostrando furiosamente os dentes para os desatentos. Descobri cabeleireiras que tentam fazer dos seus salões um espaço para sonhos de liberdade. Descobri mulheres que se reúnem na casa de uma professora para exercitarem a retirada do véu e conversarem com desenvoltura e verdade.
 
E continuo a ler a matéria sobre do médico afegão:
“Envolto em tecidos e recortes de papel, no segundo andar de um antigo prédio da Avenida Rangel Pestana, no centro comercial de São Paulo, o afegão Wakilahmad Tajik, 36 anos, trabalha em uma oficina de costura dez horas por dia. Com a fita métrica pendurada no ombro, Wakil, como é conhecido no Brasil, desenha em um papel pardo o esboço da peça que mais tarde vestirá os manequins das lojas do Brás. Diante da máquina de costura, porém, os pensamentos se fixam em outro objetivo: como voltar a exercer a profissão de médico. Wakil é um dos mais de 4,5 mil estrangeiros refugiados no país. ‘O Brasil tem aumentado a presença internacional e isso impacta no imaginário dos povos’, afirma Andrés Ramirez, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur). ‘O crescimento econômico também levou pessoas do mundo inteiro a solicitar refúgio no País’, diz.”
 
E continuo lendo e pensando na situação desse e dos milhares de imigrantes que bateram à porta de São Paulo. Não necessariamente pelo caminho da hospedaria lá no Brás. Milhares que vieram pelo sofrimento, pela insanidade dos governos autoritários, fugindo da fome e de tantas outras imposições da vida. Vieram, simplesmente.
 
E o árabe aprendeu a conversar com o judeu, quem sabe comendo um pastel na 25 de Março sem olhar rancoroso. O japonês aprendeu a conversar com o chinês na Liberdade ou na Vila Sônia. Quem sabe em Suzano. Ou com o coreano, deixando as mágoas da tragédia da II Guerra no seu devido lugar – no passado.
 
Em São Paulo, o polonês aprendeu a conversar com o alemão, que também aprendeu a dialogar com o inglês e o francês. E o tecido social foi se formando, único, indefinível, carregado de sutilezas, apenas com a vontade de deixar a vida explodir em beleza, direitos e novas conquistas, desenhando uma história bem menos dolorosa para as futuras gerações.
 
“As palavras em português ainda saem com dificuldade e o idioma persa prevalece. Wakil nunca havia pensado em viver no Brasil, mas a fala firme dá lugar a um leve sorriso quando se lembra do dia em que chegou. ‘Troquei tudo que tinha pela liberdade e pela paz que encontrei aqui.’ A vida de Wakil deu muitas voltas e não à toa as malas ainda repousam à vista em uma prateleira na sala, no bairro paulistano que, ironicamente, também leva o nome de Liberdade”.
 
Boa sorte, Doutor. Seja feliz por aqui. Que logo deixe de lado a fita métrica. Use mesmo o estetoscópio, o bom senso, o interesse sincero pelos seus pacientes. E trate com respeito e igualdade as mulheres, Doutor. Nós também sentimos dores, medos, depressão, insegurança. Odiamos o desprezo. Gostamos de igualdade e atenção. Aprendemos isso muito lentamente com os Iluministas franceses do século XVIII, mas, infelizmente, vocês não estudaram essa turma genial de pensadores. Mas é tempo de aprender. O espaço é nosso também.
 
Mas não se esqueça de usar a fita métrica para medir a felicidade que é viver em paz, sem a insegurança e o temor dos atentados. Os problemas são outros, grandes demais também, sem fim, mas com toda a segurança lhe digo: São Paulo abraça, acolhe, tem beleza, sorriso, conversas e ainda existe muito respeito pairando pelos ares.
 
Receba essas flores, doutor, afinal, isso aqui é um pouquinho de Brasil “iá ia”.