Consultando o site, deparei-me com a história do Rubens Cano de Medeiros, meu contemporâneo (hoje estou perto de completar 58 anos), sobre a CMTC. Na verdade, a história da CMTC se confunde com a evolução de São Paulo, em todos os sentidos.
Tempos Românticos… Não quer dizer que a vida era difícil ou mais fácil; na verdade, sobre muitos aspectos, era mais difícil. Quem poderia imaginar há 50 anos o celular, o iPod, o computador? Televisão, nossa, era um luxo que poucos tinham… Enfim, voltemos ao tema principal.
Meu pai, Bolivar Orbina, falecido em fevereiro de 2008 aos 82 anos, trabalhou durante 15 anos na CMTC; primeiro como motorista, chapa 8893, e depois como Inspetor, chapa 187. Dirigiu os Twuin Coach, Scania, Alfa Romeo, CMC e também microônibus, aqueles que cabiam 21 ou 22 passageiros sentados. Saia do bairro da Cidade Dutra e só podia parar a partir do bairro Alto da Boa Vista. Meu pai fazia a linha Cidade Dutra – Anhangabaú, com o ônibus de número 270 (não me recordo o número da Linha), além da linha Largo São Sebastião (hoje Bonaville) – Anhangabaú, linha de número 79 (perdoem-me se estiver enganado); o ônibus era o de número 1048, entre outras.
O curioso era que ele sempre chegava na Garagem de Santo Amaro com bastante antecedência (a garagem ocupava um quarteirão da Alameda Santo Amaro), pois pessoalmente lavava o ônibus por dentro e por fora e, sempre com uma lata de cera Parquetina branca, encerava todo o cofre do motor e o painel, limpava bancos, volante e alavanca de câmbio, para, aí sim, encostar o ônibus no ponto e dar início à sua jornada.
Na década de 50, minha irmã, então, com três anos de idade, precisou ser operada dos dois olhos, pois praticamente havia perdido a visão. Tal operação só podia ser realizada no centro de referência Instituto Penido Bournier, em Campinas, praticamente o único e melhor da época. Porém (sempre há um porém), a operação era particular. Meu pai, enquanto ela foi operada e depois, aguardando a recuperação, e ainda depois que ela teve alta do hospital, chegou a trabalhar por mais de 600 horas no mês, dirigindo ônibus (evidentemente fazendo hora extra), para poder pagar a operação, a qual não foi nem um pouco barata na época. Meu pai chegou muitas e muitas vezes a dormir no banco traseiro de ônibus por no máximo duas horas, entre um expediente e outro. Homem de fibra!
Quando meu pai fazia a linha Santo Amaro – Anhangabaú, várias figuras importantes na época tomavam seu ônibus para irem ao trabalho. Entre essas pessoas, destaco o saudoso Dr. Waldemar Sacramento, médico e professor do Hospital das Clínicas, que fazia questão de pegar o ônibus de meu pai sempre no mesmo horário. Descia no Túnel 9 de Julho e caminhava até o Hospital das Clínicas, para sua jornada. Profissional competente e ser humano fora de série.
Havia ainda um grupo de professoras que dava aula no Grupo Escolar de Interlagos (Prédio Nôvo). Elas faziam questão de, diariamente, pegar o ônibus de meu pai, sempre no mesmo horário. Lembro-me que ele contava que, se estivesse muito adiantado, vinha mais devagar para não deixá-las a pé; se estivesse atrasado, acelerava um pouquinho.
Para vocês terem uma idéia, quando ele completou seus 34 anos, esse grupo de professoras, juntamente com seus maridos e/ou namorados, reuniram-se em nossa casa na Cidade Dutra, para comemorar seu aniversário, tal era a consideração que nutriam por ele.
Na Garagem de Santo Amaro, algumas curiosidades.
1) Sr. Artilheiro, colega de meu pai: fazia peripécias subindo as paredes da garagem qual um gato;
2) Sr. Serafim Gonzales, também colega de meu pai: durante o tempo em que aguardava o início de sua jornada, aproveitava o tempo para estudar. Formou-se em Direito e seguiu sua carreira como Delegado da Polícia Civil, passando por vários setores.
3)Alvarenga, outro colega de meu pai; cumprimentava a todos com o indefectível “É UAI!”, com o gostoso sotaque de Caxambú – MG.
4)Sr. Brito: muito respeitado entre os colegas; em sua folga, passava o dia na garagem, acompanhando a revisão de seu veículo passo a passo.
5) Orlandinho: teve um acidente trágico, logo após ter atravessado o Túnel 9 de Julho; perdeu o freio do seu ônibus e foi batendo em todas as árvores, até parar na Praça 14 Bis. Tragédia. Houve morte e muitos feridos. Tragédia.
6)Arthur, colega de meu pai como motorista e depois como inspetor. Vive hoje no litoral de São Paulo.
7) Jeriquinho: Cobrador que trabalhou muito tempo com meu pai. Grande amigo.
8) Pedro Dias, amigo, colega de trabalho e vizinho de meu pai; trabalhava na Martins Fontes. Saudoso.
9) Jonas Sgarbi: talvez o maior amigo de meu pai (estou escrevendo tudo isso, buscando pela minha memória e através de fatos). Saudoso Jonas; partiu aos 39 anos de idade. Muito jovem! Trabalhou com meu pai na CMTC e após alguns anos no Frigor Eder. O Jonas dirigia Papa-Fila; em uma ocasião, em que fazia a curva da Rua Barão de Duprat para acessar a Herculano de Freitas em Santo Amaro, o seu banco simplesmente quebrou e ele caiu, mas mesmo assim com habilidade, conseguiu com as mãos, frear o enorme veículo.
10) Hélio Mosca: meu saudoso tio, cunhado de meu pai; eram, além de parentes e colegas de CMTC, muito amigos. Em 1960, foi encaminhado à CMTC um abaixo assinado de moradores da Cidade Dutra e usuários dos ônibus para que fosse incluído em sua ficha de serviço um elogio, à sua conduta, educação, trato com as pessoas, cuidado com o bem público do qual era responsável; a exemplo de meu pai, era bastante cuidadoso com o veículo que dirigia.
11) Saraiva; outro colega de meu pai. Cheguei a estudar em uma escola de sua propriedade.
Enfim, eu sei que são poucos os contemporâneos de meu pai; muitos já partiram. Aos que ficaram, meus respeitos e meus agradecimentos por terem feito parte da vida de meu pai e meu tio. Afinal, se não fossem por vocês, nós não estaríamos aqui hoje, rendendo de certa forma uma pequena homenagem. Tenho certeza que, da mesma forma que a CMTC foi importante para meu pai, também o foi para vocês, em uma época importante de suas vidas. Muito obrigado.
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