Antigamente havia muitos campos de várzea no bairro do Sacomã, nas proximidades do Hospital Heliópolis. Naqueles campos, que atraiam multidões de torcedores nos finais de semana, vi muitos jogos bons e também alguns craques que só não se tornaram jogadores profissionais porque não quiseram.
Lá aconteceu um lance que deu muito que falar, e ainda hoje, quase trinta anos depois, ainda é motivo de discussão.
Foi num jogo entre um time de São João Clímaco, considerado da casa, e outro da Vila Prudente, que era o visitante. No final do segundo tempo, apesar da forte pressão do time da casa, que já tinha perdido vários gols, o placar do jogo continuava em branco. A defesa de Vila Prudente se virava para manter a bola afastada da sua área. E foi pelo "chutão pra qualquer lado" dado por um zagueiro, que a bola, depois de resvalar em outro jogador (a famosa "bola espirrada"), foi cair nos pés do seu ponta-direita, que estava livre e desmarcado no meio de campo.
Franzino e arisco, o ponta-direita de Vila Prudente não perdeu tempo. Rapidamente ajeitou a bola e partiu com ela em direção ao gol adversário.
O goleiro do São João Clímaco, vendo que nenhum companheiro chegaria a tempo para dar combate, saiu da área desesperado e tentou agarrar o atacante para matar a jogada. Com uma gingada de corpo e um "drible da vaca" (ou meia-lua), o esperto ponteiro se livrou do pobre goleiro, que ficou esparramado no chão.
Todos já davam o gol como certo. Só faltava agora empurrar a bola para a rede vazia.
Foi aí que alguém da torcida gritou:
– Se marcar, vai morrer, filho da p…!
Coincidência ou não, imediatamente o ponta-direita colocou a mão na parte de trás da coxa e começou a mancar. Ele ainda deu uns dois ou três passos antes de se jogar no chão, onde ficou se contorcendo enquanto a bola saia pela linha de fundo.
O juiz nem reiniciou o jogo. Deu o apito final com o ponta-direita ainda sendo atendido dentro campo. E ninguém reclamou.
Tínhamos parado para ver aquele jogo na volta da nossa pelada de futebol de salão (hoje chamado de futsal), que reunia a turma todos finais de semana. Nessas ocasiões, tanto durante o jogo como na cervejada que acontecia depois, rolavam sempre muitas gozações e discussões. Jogando contra ou pelo mesmo time, tendo razão ou não, todo mundo gozava e brigava com todo mundo. Era divertido.
E como não podia deixar de ser, naquele dia o assunto foi o gol perdido pelo ponta-direita de Vila Prudente depois que alguém comentou:
– Que azar! Sentir uma fisgada na coxa depois de ter driblado o goleiro.
Começou a discussão, que continua até hoje:
– Fisgada ou medo de morrer?
– O camarada blefou. Você acha que alguém ia dar um tiro no meio de tanta gente?
– Mais um motivo. Ninguém ia saber quem tinha atirado.
– Foi aquecimento mal feito. Uma arrancada daquela com o frio que tava fazendo não podia dar outra…
– Uma ova! Se ele tivesse contundido não tinha subido na carroceria do caminhão com aquela agilidade na hora de ir embora.
– Mas aí já tinham passado éter na perna dele. Dava pra sentir o cheiro de longe…
– Se fosse mesmo fingimento, ele tinha que ganhar um Oscar de melhor ator pela interpretação!
– Com revólver na cara não é tão difícil…
– Que revólver? Você viu algum revólver na mão de alguém?!
– E precisa? Em São João Clímaco, até cachorro anda armado!
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