São Paulo – 1960, a cidade enorme que atraía e amedrontava, pronta para ser descoberta nos seus meandros que passavam pela faculdade de filosofia da USP, na Rua Maria Antonia, quase ao lado do La Licorne, o famoso bordel da boca do luxo, pela Avenida Angélica vendo ruir seus casarões, pelo longínquo Morumbi começando a se povoar, pelo Viaduto do Chá com seus marreteiros criativos, pelos luxuosos cinemas do centro, pelo Paribar, o barzinho em torno da biblioteca municipal, pelo teatro de Arena e Oficina, pelos bondes que iam até Santo Amaro e por uma porção de coisas mais.
O cenário perfeito para as meninas vindas do interior para "fazerem faculdade em São Paulo" e que num ato de arrojo constituíram talvez a primeira república feminina desta cidade. Moça de família, morava em pensionato de freira, tinha que chegar até as 21 horas e se sujeitar a uma porção de regras e controles das freiras ilhadas num mundo irreal.
Lá vamos nós, sob protesto dos pais, tentar alugar um apartamento para sete jovens. Ufa, que barra alugar apartamento! Queriam provas de que éramos moças de família e que não iríamos manchar a reputação do prédio. Resultado: os pais, mesmo reclamando, tiveram que ser os fiadores, e acabamos alugando o apartamento mais caro da Santa Cecília, na Rua das Palmeiras, num dos prédios luxuosos que ainda restavam no pedaço.
Os condôminos até se reuniram para discutir nossa chegada, algumas regras não foram escritas, mas ficaram tácitas. As dúvidas de alguns deles aumentaram quando viram a mudança. Mudança, uma vergonha para um prédio fino! Um caminhão estrambelado, com algumas moças em cima, ajudando a descarregar as tralhas, que eram devidamente empurradas e ou jogadas pelo belo saguão, afinal cobrava-se por hora e dispensamos os ajudantes para economizar. Por via aérea ou térrea chegam caixotes despencados e abarrotados de livros, roupas enroladas em cobertores, colchões, objetos não identificados e só.
Toca organizar a casa – caixotes de linguiça da feira viraram criado-mudo, varais de cordinha nos cantos substituem os guarda roupas inexistentes, estantes de livros são feitas de madeira e tijolos vindos das mansões da Avenida Angélica, que começavam a ser demolidas. Fogão, graças a Deus, faz parte do aluguel, mesa para quê, come-se com o prato na mão, geladeira e televisão são luxos pequeno-burgueses.
Algumas têm mesada, outras ganham um dinheirinho suado dando aulas por todos os bairros de São Paulo e pelo ABC também. Trem da Santos Jundiaí, ônibus, bonde, pé dois e lá vamos nós desbravar a cidade. Festas, bailinhos do Grêmio da USP, da Geologia e da Odontologia, palestras no Sedes, na Sociologia e Política, exposições de artes com vernissages que acabavam substituindo, graças a Deus, o jantar.
Reuniões políticas, de esquerda, de direita e de centro, tudo era novidade. Passeatas íamos a todas, às vezes sem saber muito bem por que. Fomos das reuniões do Rearmamento Moral às do PC, passando pela JUC, POLOP e outras…
Namoros engrenados, paixões recolhidas, uns amigos homens para nos acompanhar onde moças direitas não poderiam ir sem um guardião, coitados, demoraram para descobrir a função de guarda costas ao invés da de namorados.
Reuniões de prestação de contas, à meia noite, quando voltávamos do trabalho ou da faculdade. Quebra-paus homéricos até as duas da manhã. Brigas pela louça deixada suja, pela bagunça da sala, pelo fogão que esqueceram de limpar, pela roupa eternamente de molho etc. etc. Seremos futuras artistas plásticas, geógrafas, sociólogas, pedagogas, oceanógrafas, linguistas etc.
Homem não entra no apartamento, afinal precisamos garantir a boa convivência com os vizinhos. Os namorados esperam na porta e conseguem dar uns amassos na escada.
Duas vezes por ano tiramos a diferença, fazemos festas em que "homem entra", devidamente anunciada por um cartaz tomando à porta inteira da entrada, obra das futuras artistas plásticas e pelo recado para todos os moradores do prédio, que têm que aguentar barulho das meninas que tocam, cantam e até tem um hino oficial, o "Banho de Lua", cantado em falsete.
Nessa trajetória encontramos a dona Telma, a vizinha, amiga e conselheira e a dona do telefone, que nos adotou e até nos ensinou a temperar feijão. Como abusamos da mãe-amiga.
Demorou, mas já temos, por doação do zelador e dos moradores, mesa, liquidificador, cadeiras e geladeira (emprestada pela dona Nega). Já deu até para comprar guarda-roupas e escrivaninhas e fazer um ante-sala com uma linda porta divisória e uma fina estante de livros, doações pós-reforma de apartamentos vizinhos.
Já podemos receber visitas dos amigos homens, afinal os tempos e os valores mudaram. O Brasil também mudou – Revolução de 64, AI 5. O panorama político acabou trazendo mudanças também para nós. Como algumas das Luluzinhas tinham se casado ou mudado em razão de trabalho, sobrou lugar para alojar a estudante saída do CRUSP, a irmã do preso político, e outras jovens na pior econômica ou politicamente.
Muita coisa mudou nesse tempo, nos profissionalizamos, a caixinha coletiva de dinheiro engordou. Só uma coisa não mudou nestes muitos anos: o maldito SDS – "Só Deus Sabe" do livro caixa. Faltou dinheiro no fim do mês, lá vem o SDS – e não foram poucos. Não há cristão que descubra o erro, aliás, as humanistas para cálculos são um desastre.
O tempo passou, a vida correu, cada uma tomou seu rumo, algumas já não estão mais entre nós, as meninas ingênuas do interior descobriram, viveram intensamente o São Paulo dos anos 60.
Quantas saudades do Paribar, do Clubinho dos Arquitetos, do Cine Marrocos e do Ipiranga, da aventura de escalar o morro do Jaraguá, do papo-cabeça no Riviera e no Bar Redondo, das peças do Arena e do Oficina, do correr da polícia nas passeatas, do sentar no trilho dos bondes na Rua Maria Antonia para protestar contra o aumento da passagem, de todos os abaixo assinados que endossamos, das confusões em que nos metemos, um pouco por ingenuidade e muito pelo idealismo de consertar o mundo, junto com inúmeros colegas depois sumidos ou suicidados.
A maioria de nós continua neste São Paulo, que dizem está mais violento, o tarado exibicionista foi substituído pelo estuprador impiedoso, o ágil batedor de carteira do ônibus Penha-Lapa agora anda armado e quer cartão de banco, passeatas estão quase só limitadas as do MST, assembléia de grêmio estudantil parece estar fora de moda, fazer revolução nem pensar…
Enfim, o tempo passou, continuamos por aqui, porque esta cidade tem visgo, agarra, afinal o congestionamento e o cheiro de escapamento de carro estão incrustados em nós.
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