Por vezes, um sentimento pra lá de estranho me acomete: uma saudade daquilo que não conheci. Tenho 19 anos e sou de uma geração já completamente habituada em freqüentar cinemas em shoppings centers, mas tenho grande saudade dos grandiosos cinemas da cidade se São Paulo.
Há algum tempo, em passagem pelo Brás, me apercebi de um grande letreiro já parcialmente devorado pela volúpia do tempo: PIRATININ A. Assim, deste jeito, faltando o G. Logo abaixo um enorme letreiro colorido fazia referência ao atual estabelecimento, um estacionamento.
Descobri que no local havia o grande Cine Piratininga, que se orgulhava de ser o maior do Brasil. No entanto, desde a década de 70 o imóvel (ou o que dele sobrou) é destinado ao abrigo de automóveis (transição sintomática em uma metrópole em que "nascem" mais carros ao dia que seres humanos).
Na década de 70, o prédio ainda ostentava o letreiro em bom estado, até mesmo com a inscrição inferior louvando o tamanho do cine: "O maior cinema do Brasil". Não que houvesse preocupação do novo estabelecimento em resguardar a memória do cinema, o mantiveram por pura inércia economicamente motivada.
Hoje em dia senhores, quem se aventurar por aquelas bandas, não encontrarão qualquer vestígio que informe o passado glorioso do imóvel. Recentemente, alguém achou melhor remover por completo as letras (até porque, quem ligaria para isso mesmo?).
Agora, que os cinemas não vinculados a shopping centers são melhores, ah isso são sim. Mais subjetivos, mistificam e intensificam o sentimento de prazer em freqüentar o cinema. A qualidade de som e imagem talvez não chegue perto dos atuais projetores de grandes cinemas "de shopping". Mas a sensação é completamente diversa, para melhor (posso dizer isso porque cheguei a ir em alguns cinemas autônomos – ou fora de shoppings -, que, embora já decadentes, ainda tinham lá seu charme).
Afinal, nem sempre a qualidade técnica implica emoção, satisfação. É como ouvir música registrada em LP e baixada da internet. Esta última é efêmera, desvinculada, sem graça. Muitos diriam: "Mas o som é melhor!" E eu respondo, a exemplo do personagem Durval, do magnífico filme brasileiro "Durval Discos": o som é melhor, mas a música… Ah não, a música não.
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