Meu nome é Smith Wesson, porem em São Paulo me chamavam Chimite. Cheguei a Santos em meados de 1950 e depois de alguns dias no porto fui levado para as casas Bayard na São João, para ser mais exato. Fiquei exposto lá por umas semanas e fiz algumas poucas amizades. Não gosto de ser galanteador mas eu era bonito, todo cromado,o mais caro e fazia inveja a todos. Das poucas amizades enquanto estive lá um chamava bem atenção pelo nome " espingarda de caçar veado na curva", bem esquisita pois os canos dobravam-se pela metade. Era também muito assediado pelas Berettas afro-italianas.
Depois de um certo tempo, fui comprado por um senhor bem distinto e levado para a rua da Assembléia, onde fiquei por muitos anos. Tinha uma vida boa, era livre, até me compraram uma capa de couro. Um luxo.
Sai de lá algumas vezes e conheci outros seres inanimados como eu. Quando o Coronel Fontenelle veio do Rio e começou a fazer uma reviravolta no transito da capital fui encontrá-lo ali na rua Maria Paula esquina com a Brigadeiro no posto Esso. Meu dono o chamou de louco porque ele se recusava a deixar os carros que vinham da Maria Paula a entrar no posto. Não quero conversão a esquerda dizia ele.
Vai andando, se não sair te prendo. Prende então, carioca safado.
Outra vez que sai foi para ver um comício do Jânio na Bela Vista. Ele estava fazendo um discurso com uma vassoura na mão, terno azul escuro cheio de caspa e na cabeça o quepe da CMTC. Meu dono estava um pouco distraído e chegou bem perto do caminhão onde ele estava e veio a polícia.
Seus documentos por favor. Saia do carro por favor. Começaram a revistar tudo e eu ali tremendo embaixo do banco traseiro.Traz o farolete e revista tudo. Por sorte não me acharam, agradeceram e se foram.
E o João, o cara complicado. Era neto da Gertrude Toledo Pisa lá de Pira. Um dia ele brigou com a Ana, estavam sempre como gato e cachorro. Me agarrou de dentro da gaveta, foi ate a padaria Santa Teresa, tomou umas e outras e seguiu em direção ao Largo do Café. Lá chegando começou a atirar e quebrar vidros dos prédios ao redor.
Não deu outra. Cana, foi parar na Primeira Auxiliar ali no Pátio do Colégio.
Dai chegou março de 1964. Com os militares no poder acabou-se minha liberdade. So saia da gaveta das 11 da noite as 7 da manha para ajudar na vigilância do estacionamento, sempre entocado na guaiaca do Veridiano. Com a chegada da avenida 23 de maio o meu reinado chegou ao fim.
Cheguei ao Brasil todo legalizado, mas para sair…me desmontaram todo. Um pedaço em cada mala para driblar as autoridades. Nunca mais fiquei perfeito, porem sou livre outra vez.