Cheiros

É engraçado como o olfato é um dos melhores sentidos para voltarmos ao passado. Os cheiros me dão tantas saudades. Antigamente o natal tinha cheiro, do panetone, das castanhas, das nozes e de tudo que gostávamos.

Sinto o cheiro da quitanda do bairro. Da padaria, aquele cheirinho de pão sendo assado, o cheiro do pão doce nas férias de final de ano. O cheiro da chuva na terra molhada quando ia passar as férias em Sorocaba, na casa do meu avô. O cheiro que eu sentia quando chegava, era do xixi do gato, incrível, mas até do cheiro do xixi eu sinto falta, o gato não gostava de pessoas estranhas na casa, então assim que tirávamos os sapatos, ele ia lá e fazia xixi nos sapatos.

De manhã já acordava com o cheirinho do café que meu avô acabava de fazer, em seguida minhas tias levantavam, e lá vinha o cheiro da pasta de dente, era a mais simples.

A noite como era verão a gente ficava na calçada, conversando com o vizinho. Minha tia Marise estourava pipoca e a vizinha Helena fazia café, ficávamos até tarde conversando, comendo pipoca e tomando café, nem lembrava que tinha televisão isso era década de 70.

Lá na Vila Medeiros não era diferente, o cheirinho também estava em toda parte. Como não tinha água encanada, não tinha chuveiro elétrico, então meu pai tinha um fogareiro a querosene, e minha mãe esquentava água no balde, que tinha um tipo de um chuveiro em baixo. Meu pai pendurava o balde cheio de água, e a gente tomava banho, então ficava aquele cheiro de querosene no ar. Na época eu não gostava, mas hoje quando sinto esse cheiro, que geralmente vem dos caminhões, eu gosto.

O cheiro dos lápis de cera "albion" que quando ficávamos doentes a nossa distração era desenhar, pois a televisão não tinha uma programação voltada para criança. Minha tia Evanira que vinha fazer visita, sempre trazia massinha de modelar que também tinha um cheirinho gostoso.

Quando eu ia para a casa do meu avô, padrasto do meu pai era diferente, ele morava na Libero Badaró, no 23º andar no centro de São Paulo lá as coisas eram mais sofisticadas, mas o cheiro também era demais. Acordávamos logo cedo e meu avô Benjamim gostava do pãozinho esquentado na chapa de ferro, ai ele passava a manteiga "paulista" e aquilo derretia, deixando um cheirinho… Lá era chique.

Meu avô tinha banheira e a gente só tomava banho com sabonete Phebo, e era obrigatório antes das refeições, lavar as mãos com Lisiform Primo. E o cheiro da sopa que minha avó Letícia fazia, não só o cheiro como o sabor, tudo tinha cheiro de casa de "vó".

São tantos os cheiros… Uns tão gostosos outros nem tanto, mas que fazem à gente voltar e sonhar…

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