Champanhe e gratidão

Quando terminei o curso de Medicina fiz residência em Pediatria no Hospital Infantil Menino Jesus, que fica na Rua dos Ingleses (Morro dos Ingleses). Queria ser pediatra e o hospital tinha todas as condições para me transformar num bom profissional – boa estrutura física, bom laboratório, serviço de RX, além de um corpo clinico com excelentes médicos, dirigidos pelo Professor Osvaldo Cruz, dono de uma invejável cultura médica. Extremamente atualizado, lia as revistas mais importantes dos Estados Unidos e da Europa e nada escapava à sua perspicácia. Sumidade.

Entre os pediatras com os quais convivi naquela época, lembro-me dos doutores Zucolotto, Marcondes, Zerillo. Garanhani, Antonio Foronda, Alexandre Médici da Silveira (Otorrino). A Maria Vitória Martin que administrou um curso sobre Cardiologia Infantil, o Professor José Pinus renomado cirurgião infantil e outros cujos nomes não me recordo, mas que permanecem em minha lembrança pelas lições que me proporcionaram.

Num final de uma calma tarde de sábado, eu estava de plantão, que transcorria tranquilo, quando à porta do consultório surge um senhor forte, alto, negro, com um ferimento cortante na região frontal (uns três cm) e que sangrava moderadamente. Pediu-me que lhe desse alguns pontos no local. Expliquei-lhe que atendíamos apenas crianças (consultas) e coloquei uma ambulância à sua disposição para transportá-lo para um Pronto Socorro. Recusou e insistiu, educadamente, quase em prantos, para que eu "fizesse o serviço".

Convencido, pedi à enfermeira o material de sutura que ela me trouxe rapidamente, mas sem o anestésico. Estava, explicou-me, num determinado armário a que somente os cirurgiões tinham acesso. Coisas de serviço público. Confesso que fiquei aliviado, mas o paciente não se deu por vencido:
– "Faz a seco, sem anestesia, que eu aguento." Disse-me.
Fui, mais uma vez, convencido pela sua palavra calma e confiante. Mãos à obra!

Cada vez que eu introduzia a agulha de sutura em sua pele negra eu sentia dor e ele continuava impassível, com um lenço entre os dentes para aliviar a dor, disse-me depois.
– "Vai em frente, doutor!"
Tudo, felizmente, terminou bem e lá se foi ele feliz para o seu Bixiga, onde morava, descendo as escadarias bem em frente ao Hospital, que davam acesso à Rua Treze de Maio.

Dias depois me chamam à recepção. Alguém queria me ver. Era ele! Trazia uma bem embalada garrafa em vistoso papel colorido e um largo sorriso. Veio agradecer ao "doutorzinho" e desejar Feliz Natal – estávamos em Dezembro.

Era – jamais me esqueci – um champanhe Peterlongo. De lá para cá (isso foi em 1965) muitos natais se passaram e muitos champanhes tomei, mas o doce e inigualável sabor daquela bebida e o exemplo de gratidão daquele homem simples e corajoso, até hoje permanecem em minha memória.

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