Celular na Lapa de baixo

A Lapa de baixo é uma região do bairro bem característica com algumas particularidades, como a estação ferroviária e os resquícios de cidadezinha do interior, nos modos e costumes de seus moradores, onde ainda os vizinhos em uma emergência para o jantar emprestam uma "xícara" de sal, a qual será retribuída oportunamente por uma fatia generosa de bolo de fubá, em um pirex, coberta por um pano de prato engomado e de alvura surpreendente.

Em meados de 1990 eu residia na Rua Tenente Landy, a mais movimentada pelo número de empresas sediadas nas proximidades e devido ao acesso fácil à Marginal Tietê. Em frente a minha casa havia um bar, sem letreiro, conhecido como o "Bar do Walter", no qual todos os dias, após o expediente, “batia” o meu ponto para tomar um aperitivo e conversar com a clientela que era bem diversificada, desde gerentes de bancos e empresas até operários comuns.

No período do surgimento do telefone celular, no horário de pico e o bar repleto de frequentadores, os gerentes e demais pessoas de posse do lugar, entravam no estabelecimento com o celular em punho grudado em uma das orelhas, falando alto, gesticulando, fazendo aquele teatro para os menos favorecidos que sonhavam um dia ter um aparelho igual, admirarem a novidade em tecnologia da comunicação.

Muitas vezes duvidei que os aparelhos estivessem realmente ligados ou funcionando, pois o serviço era ainda precário e difícil era efetuar uma ligação em lugares baixos como nessa parte do bairro.

Uma noite ao adentrar ao "Bar do Walter", estranhei o grande silêncio apesar da clientela fiel presente. Todos estavam perplexos com o Mané Goró, um mulato forte e exímio pintor de paredes, que em posição de destaque no balcão do bar, bradava em um celular do tamanho de um tijolo, como se estivesse na bolsa de valores em alta. Berrando, gesticulando e fazendo a “teatrada” absorvida e aprendida com o time elitizado do boteco.

Fiquei surpreso, aproximei-me dele e indaguei com a voz bem baixa:
– “Até você, Mané Goró?”
– "Seo" Achilles, não esquenta! Tô tirando o maior barato. “É de “prástico”, comprei do camelô lá perto da estação do trem”. Respondeu-me feliz o mulato.

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