É uma grande coincidência que o CE Melvin Jones voltasse a ser D. Duarte Leopoldo e Silva em 1976, pois para a geração que a frequentou nessa época, era como se o colégio passasse a ser sua exclusividade. Tanto é que existe uma comunidade no Facebook .
Sou dessa geração. Entre 1968 a 1975 interagi nesse palco com os colegas, professores e funcionários que marcaram a minha existência, que direta ou indiretamente me influenciaram de modo irreversível.
Começarei em 1968, quando entrei na quarta série. A professora Satie Enju era uma pessoa bem paciente, carinhosa e com uma boa didática. Qualidades que conquistaram os alunos nas primeiras aulas. Posso dizer que participei do primeiro ato político da minha vida no pátio da escola, quando os professores fizeram um minuto de silencio em protesto ao reajuste concedido pelo governo. Hoje participo da greve das universidades federais como professor…
Naquela época havia o exame de admissão e somente os aprovados poderiam frequentar as escolas públicas. Os professores Gianella e Sandra ministravam as aulas de português e matemática respectivamente em um cursinho de admissão para o Ginásio Estadual Melvin Jones. Enfim, tivemos que prestar exame seletivo (vestibular) para frequentar o Melvin. Com certeza esse é um dos motivos para que o nível de ensino fosse de primeiro mundo.
No ginásio pude conviver e se adaptar a ter um professor para cada disciplina, o que era muito motivador. Tive mestres excelentes como as professoras Mércia de geografia, Maria do Carmo de história, Maria de Lourdes de desenho, Sandra Augusta de matemática, Marina Caldas de português, Maria da Penha de inglês e os professores Carneiro de técnicas comerciais, Molina de Educação Física, Gianella de francês e português.
Os destaques eram a elegância e o charme da professora Marina, fumando seu Marlboro com muita classe e sofisticação além do seu português impecável; a maquiagem e o perfume da professora Sandra emoldurando as equações de segundo grau e as funções na lousa; a sensualidade natural da professora. Maria da Penha ministrando inglês com música. Inversamente proporcional a sua simpatia, a caligrafia do Professor Carneiro era hieróglifo. Tínhamos que decifrar os escritos. Também tinha muito bom humor. Quando algum aluno “balia” em sua aula, ele comentava:
– “ tem alguma ovelha me chamando?”
O professor Gianella (pronúncia-se Janela) era um caso a parte. Usava seu próprio nome para dar exemplo de cacófato:
– “ Já -nela!”
Isso fazia parte do contexto, pois o mesmo brincava muito com as meninas, inclusive dando apelidos. Havia uma aluna que era conhecida como "boneca da estrela". Era também um “frasista” nato. Eis um exemplo:
-"Uns tem fé demais e outros fé de menos".
Reza a lenda que, devido a muitas liberdades que este se permitia com as meninas, algumas mães pediram uma reunião com ele. Este então se declarou que como pessoa, pode não ser um grande exemplo, mas como professor era intocável e quase perfeito (o que era verdade). As mães fizeram muitas críticas à sua forma de ser. Nos dias seguintes à reunião, as meninas com olhar de satisfação o encararam. O professor Gianella com seu jeito bonachão de ser comentava:
– “ Fulana, sua mãe é um canhão. Cicrana, sua mãe é bem interessante!”
Enfim ele era um “showman”.
Entre as trivialidades daquela época destacavam-se que a maioria dos professores fumavam e lógico, os alunos seguiam seus mestres. Fumei durante 40 anos… Outro destaque foi a mudança do blusão do Melvin de cinza para azul. Como a fanfarra caía bem com o novo visual. O professor Mozart à frente aos alunos tocando e gritando Melvin Jones, Melvin Jones nos desfiles cívicos na Avenida de Pinedo.
Outro fragmento que destaco foi brincadeira dos alunos, que após o hino Nacional, batemos palmas sincopadamente. O Diretor Jorge Abraão não perdoou, ameaçou todos de suspensão até que todos perderiam o ano, caso os alunos não se acusassem. Teve aluno que não fez a brincadeira, assim mesmo acabou se acusando. Esse diretor era fogo!
As paqueras eram feitas nos bailes nas residências dos alunos e as oficiais de formatura, além das festas juninas, onde o correio elegante era muito requisitado. Havia uma moralidade típica da época. Se a gente falasse palavrões com as meninas ou os adultos, nosso filme se queimava. Assim, entre os meninos, tudo bem. Mas tínhamos que ver, de canto de olho, se havia mais alguém ouvindo.
Os anos 70 também eram o tempo da discriminação, pois, se os meninos podiam fumar no pátio, a Dona Rosa vigiava as meninas, pois elas não podiam, mas fumavam. Teve várias vezes que fiquei com dois cigarros na mão. O pátio era o local de conversas e discussões das novidades que nos deixavam sem fôlego, além do charme das meninas do Melvin, naqueles anos criativos.
No esporte o Brasil era Tri, com aquela seleção fantástica em 1970. É redundante destacar que Carlos Alberto Torres, o capitão que levantou a Jules Rimet, Clodoaldo e Pelé foram os titulares do Santos e menção honrosa para Edu e Djalma Dias, também do Peixe. Destaques também para Gérson do São Paulo, Rivelino do Corinthians, Tostão do Cruzeiro e Jairzinho do Botafogo. Bons tempos em que a seleção era formada com jogadores que atuavam no país. A nota triste ficou para o goleiro Félix que faleceu recentemente.
A fórmula Um desembarcava em Interlagos em 1972. A primeira corrida no Brasil valendo pontos teve a vitória tranquila do Emerson Fitippaldi, cerca de 11 segundos à frente do Jackie Stewart. A geração atual não curtiu essa fase romântica, pois a gente podia acampar em Interlagos. Havia um treino livre pela manhã da corrida e foi uma emoção ser acordado com o ronco dos motores passando a 10 metros da barraca de camping e sentir o cheiro de gasolina. No basquete feminino as jogadoras Norminha e Marlene do Brasil, além da gigante soviética “Semenova” eram nossos focos nas conversas. Se não me engano, a Marlene foi técnica da seleção na fase de Paula e Hortênsia.
Na música a criatividade era total. Milton Nascimento, Chico Buarque, Elis Regina, Jorge Ben, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil oriundos nos anos 60 se consagraram nos anos 70, além do surgimento de Raul Seixas, Ney Matogrosso (Secos e Molhados), Benito de Paula, Rita Lee novos baianos dentre outros.
Do lado internacional tivemos o fim dos Beatles, mas ganhamos os LPs (lembram desse termo?) solo do Paul, John, George e Ringo. No início dos anos 70 tivemos lançamentos que se tornaram clássicos como Deep Purple Machine Head (Smoke on the water); Led Zeppelin Vol. IV (Stairway to heaven); Pink Floyd – The dark side of the moon; Rolling Stones – Its only rockin roll; Yes- Close to the edge; David Bowie – The rise and fall of Ziggy Stardust and Spiders From Mars (Starman); Elton John (Rocketman). Esse pessoal fez a trilha sonora da nossa adolescência.
Ainda me lembro da guerra entre a turma que curtia MPB e o pessoal do rock. Mal sabíamos nós o que viria musicalmente no século XXI. Michel Teló, Sorriso Maroto, “Sertanojos“ e Cia Ltda…
Enfim, creio que o corpo docente maravilhoso, o bairro bucólico e industrial da Capela do Socorro e a época em que compartilhamos o espaço do Melvin Jones contribuíram muito para que nossas vivências (com um olhar lorpa – relembrando o professor Gianella) continuem sempre vivas na memória afetiva.
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