Caso Isabela, Rua Santa Leocárdia, lembranças de 1970

Era uma noite no final de março quando assisti num telejornal que uma menina de 5 anos havia caído do 6o. andar de um edifício na Zona Norte e a polícia estava investigando.
A partir daquele dia o caso do assassinato da pequena Isabela tomou repercussão nacional e até internacional.
Testemunhas, suspeitos, novos fatos, perícias. O mistério que envolvia o crime acabou ocupando espaço de destaque em todos os jornais, telejornais, internet, enfim, durante semanas ouvimos:
– Quem matou Isabela?
– O quê teria acontecido realmente?
Nos comovemos com o caso.
Nos sensibilizamos a cada “Isabela” que morre. Infelizmente são muitas “Isabelas” morrendo no Brasil e no mundo.
Há muito a ser feito para que vidas sejam respeitadas.
Há muito a ser trabalhado no interior das pessoas para que vidas sejam valorizadas acima de qualquer coisa.
Em meio às notícias vi um jornalista falar:
– A menina Isabela foi arremessada do 6o. andar do Edifício London, localizado na Rua Santa Leocárdia, 138.
Santa Leocárdia?
Pareceu-me familiar.
Como poderia esquecer da Rua Santa Leocárdia, 130 e da EEPG “Cônego Luiz Biasi” (grande pároco de uma igreja na Vila Maria), onde eu e meus irmãos estudamos durante vários anos na década de 1970?
Helicópteros, perícias, policiais, curiosos, repórteres, luzes, reconstituições. A pequena e pacata Rua Santa Leocárdia da minha infância e adolescência jamais poderia imaginar tamanha movimentação.
Na época nem existiam prédios por lá, somente casas, que só viam movimento nos horários de entrada e saída de alunos.
Dona Wilda, enérgica e atenciosa diretora, comandou por muitos anos uma equipe de professores de excelência, que era valorizada e ensinava muito, tudo o que aprendemos. Para eles, o magistério era quase um sacerdócio. Havia respeito por eles. Dona Latife (História), Dona Pérola (Geografia), Seu Ângelo (Inglês/Português), Professor Pierre (Francês) e tantos outros são nomes que jamais esqueceremos.
A Rua Santa Leocárdia fez parte de minha rotina da 1ª à 8ª série. Era basicamente a mesma turma desde o início. Lembro-me de nomes, sobrenomes e sorrisos, porém vagamente de seus rostos de criança. Para mim são inesquecíveis as aulas, festas juninas, torneios inter-bairros, treinos, trabalhos escolares nas tardes ensolaradas que acabavam em ouvir discos em pequenas vitrolas e depois sempre um delicioso lanche, segredos entre amigas, amigas para sempre, para sempre em minha memória.
Em frente à nossa escola havia a Escolinha Gasparzinho cuja proprietária era mãe de um colega de turma. Lá era espaço dos pequenos. Pequenos como Isabela.
À tarde eu ia buscar meus dois irmãos que estudavam na mesma escola que eu. Ali, à sombra de duas enormes figueiras plantadas na frente da escola, eu e várias mães esperávamos a saída dos alunos. A preocupação de todas com as crianças era a travessia das ruas, especialmente da Avenida Ataliba Leonel, que possuía tráfego intenso (não existia ainda a Avenida Luiz Dumond Villares, lá era só um córrego).
A Prefeitura de São Paulo tinha um projeto de transformar algumas ruas da cidade em ruas de lazer nos domingos à tarde. Isto ocorria com a Rua Quedas, a qual era paralela à Santa Leocárdia sendo que as duas ruas se encontravam em seu final.
Duas meninas da classe moravam nessa rua e resultou em muitos domingos onde nossa turma se encontrava para jogar vôlei, outros iam nas rampas de skate, outros jogavam queimada, hand ou simplesmente conversavam sentados nas calçadas. Lá conhecíamos muitas pessoas diferentes da região. Eram crianças e jovens comuns, cheios de esperança no futuro que se reuniam simplesmente buscando lazer nas tardes de domingo. Não havia o perigo das drogas.
Era década de 1970 e, apesar da ditadura e suas atrocidades (coisas que, na época, nem tínhamos conhecimento), na sociedade em si não ouvíamos falar de “casos Isabela” ou qualquer coisa parecida.
Minha turma se formou em 1977, com colação de grau, baile no Clube de Regatas Tietê e tudo mais. Ficaram doces e inesquecíveis lembranças.
Infelizmente a pequena Rua Santa Leocárdia ficará marcada pelo fato recente, mas para mim ainda permanece, e é mais forte, a Rua Santa Leocárdia de minha escola, dos tempos de infância, onde podíamos ir estudar e ir à rua de lazer tranqüilamente. Onde nossos pais, responsáveis e carinhosos, podiam ficar tranqüilos, pois iríamos voltar para casa cheios de coisas para contar e podíamos crescer em paz, mesmo na grande São Paulo.
Que minha querida Rua Santa Leocárdia seja também a rua de boas lembranças de milhares de crianças que por ali passaram e ainda passam.
Que as boas lembranças prevaleçam em nossas vidas. Que as más lembranças sejam transformadas em boas lições.
Que haja paz e respeito à vida!

e-mail da autora: [email protected]